O tempo cosmológico não termina no presente; o instante em que vivemos é apenas um ponto de passagem entre um passado finito e um futuro imensamente maior
Galáxia NGC 1300, localizada a 69 milhões de anos-luz de distância na constelação de Eridanus. Imagem capturada pelo Telescópio Espacial Hubble (HST): https://www.futura-sciences.com
Desde Darwin, aprendemos a pensar em "tempo profundo": uma história da Terra e da vida medida em milhões de anos. Décadas mais tarde, a geologia estabeleceria a idade do nosso planeta em 4,54 bilhões de anos. A cosmologia ampliaria esse horizonte para os 13,8 bilhões de anos do Universo observável.
Numa noite escura, longe das luzes da cidade, basta olhar para o céu para enxergar uma faixa luminosa mais clara. É a Via Láctea, nossa galáxia, composta por centenas de bilhões de estrelas. À primeira vista, tudo parece pertencer ao presente, mas na verdade boa parte daquela luz iniciou sua viagem há cerca de trinta mil anos.
Quando ela partiu em direção à Terra, nenhuma pirâmide existia e Stonehenge ainda não havia sido erguido. A escrita sequer havia sido inventada. O Homo sapiens já habitava o planeta, mas vivia exclusivamente da caça e da coleta.
O céu noturno é, na realidade, uma gigantesca máquina do tempo. Trinta mil anos superam muito qualquer escala que nossa experiência cotidiana consegue imaginar. Entretanto, para um cosmólogo, esse intervalo é praticamente insignificante.
Há uma das ironias mais fascinantes da história da ciência. O homem que primeiro imaginou um Universo em expansão e lançou as bases da teoria do Big Bang era também um sacerdote católico. Seria natural supor que Georges Lemaître tenha visto em sua descoberta uma confirmação científica do relato bíblico da Criação. Mas aconteceu exatamente o contrário.
Em 1951, durante um discurso na Academia Pontifícia de Ciências, o Papa Pio XII afirmou: "A cosmologia moderna parece confirmar cientificamente o Fiat Lux do Gênesis." Era compreensível, já que o Santo Padre via uma aproximação entre ciência e fé. Mas Lemaître sentiu-se profundamente desconfortável. Procurou discretamente o Vaticano e argumentou, em essência: "Santidade, não faça isso; se amanhã a física mudar, a fé se tornará dependente de uma teoria científica. E teorias científicas são provisórias."
Essa prudência acabou influenciando o próprio Vaticano. Pio XII nunca mais voltou a se referir à cosmologia dessa maneira. Esse episódio diz muito sobre Lemaître, que defendia a separação entre ciência e fé. Ele costumava expressar essa distinção de maneira simples: o cientista pergunta "como"; a religião pergunta "por quê". A ciência investiga a evolução do Universo. A fé questiona: por que existe algo em vez de nada? Uma pergunta não elimina a outra. Simplesmente pertencem a domínios diferentes. Essa talvez seja a maior contribuição filosófica do sacerdote belga.
Desde Lemaître, a cosmologia foi dominada por uma verdadeira arqueologia do Universo. Escavavam o passado em busca das primeiras galáxias, das primeiras estrelas, dos primeiros átomos e, por fim, dos primeiros instantes após o Big Bang, até o limite de nossas teorias: o Tempo de Planck. Talvez tenha chegado a hora de complementar essa arqueologia com uma prospectiva cósmica.
Se a "idade do Universo", o período transcorrido desde o Big Bang, representa apenas uma pequena fração da sua história total, então a pergunta decisiva do século XXI talvez não seja mais "como tudo começou?", mas "o que ainda está por acontecer?".
Esse é o exercício intelectual que propõe Jean-Philippe Uzan, um dos mais respeitados cosmólogos franceses da atualidade. Para ele, talvez estejamos olhando para o Universo na direção errada. Procuramos reconstruir os primeiros instantes após o Big Bang, compreender como surgiram as primeiras partículas, as primeiras estrelas, as primeiras galáxias. A própria pergunta "como tudo começou?" tornou-se quase sinônimo da cosmologia moderna, na visão do autor de Uma História Popular do Universo (Paris: Flammarion, 2025).
Diante dessa inquietação, cabe a pergunta: e se a parte mais importante da história do Universo ainda não tiver acontecido? Essa inversão de perspectiva parece simples, mas muda profundamente nossa maneira de compreender o cosmos. Quando ouvimos que o Universo tem 13,8 bilhões de anos, nossa intuição imediatamente interpreta esse número como uma idade avançada. Afinal, para uma criatura cuja existência se encerra em poucas décadas, bilhões de anos parecem uma eternidade.
Desde a descoberta da expansão acelerada do Universo, no final do século XX, sucessivas observações realizadas por telescópios espaciais e pelos maiores observatórios terrestres vêm fortalecendo a ideia de que o destino do cosmos não será um colapso iminente, mas uma expansão que poderá prolongar-se por um tempo inimaginavelmente maior do que o tempo transcorrido desde o Big Bang.
Até agora imaginávamos que a maior descoberta da cosmologia fosse responder a como o Universo começou? Talvez a próxima grande revolução seja perguntar: como será a maior parte da história do Universo? Não é uma pergunta sobre bilhões de anos. É sobre praticamente toda a existência cósmica.
Daqui a cerca de 3,5 bilhões de anos, o Sol transformará a Terra em um planeta inabitável. Muito antes disso, toda a memória de nossa civilização provavelmente terá desaparecido. Ainda assim, segundo tudo o que hoje sabemos, o Universo continuará sua evolução por um intervalo de tempo incomparavelmente maior. Tendemos a imaginar que a história termina com o fim da aventura humana na Terra. A cosmologia sugere exatamente o contrário: nossa história termina; a do Universo continua.
Depois de Copérnico retirar a Terra do centro do cosmos, Darwin retirar o homem do centro da natureza e Lemaître retirar o Universo da imobilidade, Jean-Philippe Uzan parece sugerir um quarto deslocamento: nem mesmo os impressionantes 13,8 bilhões de anos ocupam o centro da história cósmica. Talvez sejam apenas o seu prelúdio.
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