sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Resfriamento passivo: da física da radiação solar ao planejamento das cidades

A partir do conceito de 'cidades brancas', um conjunto de estratégias orienta atualmente políticas de adaptação climática em diversas partes do mundo

Conversão de telhado em Nova York, via programa NYC CoolRoofs, usando tinta de alta refletância solar e emitância infravermelha. FOTO: Ben Huff/Untapped Cities

Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento das cidades foi orientado principalmente pela expansão da infraestrutura, da mobilidade e da atividade econômica.

Somente nas últimas décadas ficou evidente que o ambiente urbano também exerce uma influência decisiva sobre o clima local. Materiais empregados em edifícios, ruas e calçadas absorvem grandes quantidades de radiação solar ao longo do dia e a devolvem lentamente para a atmosfera, intensificando o fenômeno conhecido como ilha de calor.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O frio que vem do céu

Como um fenômeno físico conhecido desde a Antiguidade inspirou pesquisas brasileiras sobre climatização passiva

Fabricação de gelo de modo similar ao usado na antiga Pérsia: expondo ao céu noturno água em recipientes rasos. IMAGEM: https://youtu.be/SJ09pwzgAdI?is=o8FgWBqB1Nn2p68V

No artigo anterior sobre arquitetura vernacular, vimos que aquele conhecimento, acumulado ao longo de milênios, constitui um verdadeiro laboratório. Muito antes da eletricidade e do ar-condicionado, diferentes civilizações aprenderam a utilizar o Sol, o vento, a massa térmica das edificações e até o frio do céu noturno para prover conforto térmico.

Um dos exemplos mais fascinantes dessa inteligência construtiva encontra-se nas cidades históricas do Irã. Seus badgirs (torres de vento), yakhchals (casas de gelo), ab anbars (cisternas subterrâneas) e pátios internos voltam hoje a orientar arquitetos e engenheiros na busca por edificações de baixo carbono e mais resilientes às ondas de calor causadas pelo aquecimento global.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Armazenamento em nuvem: qual o custo ambiental dos data centers?

Grande parte da informação que circula na Internet depende de uma infraestrutura altamente energívora, que também consome milhões de litros de água para dissipar o calor de seus computadores

Vapor de água dissipado acima das torres de resfriamento no data center The Dalles, no Oregon (EUA). FOTO: Google

Desde a Revolução Industrial, cada grande etapa do desenvolvimento econômico esteve associada a uma infraestrutura energética dominante. No século XIX, o carvão alimentou as máquinas a vapor. No século XX, o petróleo impulsionou a economia globalizada.

No século XXI, a sociedade digital parece funcionar de forma quase imaterial, mas depende de uma nova infraestrutura física: gigantescos data centers que armazenam, processam e distribuem informações continuamente.

domingo, 2 de agosto de 2026

Arquitetura vernacular: o que o passado ensina para resfriar as cidades do futuro

Muito antes da eletricidade e do ar-condicionado, diferentes civilizações aproveitavam fenômenos naturais para prover conforto térmico em suas edificações

Edificação moderna baseada na arquitetura vernacular iraniana. FOTO: www.stirworld.com/see-features-green-mansion-is-a-modern-construction-reaffirming-iranian-vernacular-architecture

A história da arquitetura costuma ser contada por meio de grandes monumentos, palácios e templos religiosos. Mas existe uma outra história, menos conhecida e igualmente fascinante: a das construções erguidas por comunidades que, ao longo de séculos, aprenderam a adaptar suas moradias ao clima, ao relevo, aos materiais locais e às necessidades de seus habitantes. É dessa experiência coletiva que nasce a arquitetura vernacular.

Muito mais do que um conjunto de técnicas construtivas, ela resulta de um processo de experimentação que atravessou gerações de povos de diferentes regiões do planeta. Essas populações observaram o comportamento do Sol, dos ventos, das chuvas e das estações do ano para desenvolver habitações capazes de oferecer conforto utilizando apenas os recursos disponíveis na própria natureza.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um milhão de visitas ao blog: o valor da permanência

Se os primeiros anos foram marcados pela divulgação científica, hoje O Frio que Vem do Sol busca construir uma visão integrada do conhecimento

Sistema de conversão solar de máquina de gelo autônoma desenvolvida pelo grupo de pesquisa coordenado pelo editor de O Frio que Vem do Sol. Projeto científico que deu origem ao nome do blog. FOTO (2005): Antonio Pralon

Ao atingir a marca de 1 milhão de visitas, é hora de fazer um breve balanço para as pessoas que, em algum momento, encontraram neste blog um espaço para adquirir novos conhecimentos ou simplesmente refletir.

Em tempos de redes sociais dominadas por conteúdos de consumo instantâneo, esse número talvez pareça modesto. Não é. Para um blog autoral de divulgação científica, mantido de forma independente ao longo de mais de dezesseis anos, representa a prova de que ainda existe espaço para textos que convidam à reflexão.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mudança climática: microrganismos que emergem do Ártico, após milênios congelados, representam perigo?

À medida que o aquecimento global acelera o degelo do permafrost e expõe vírus e bactérias preservados durante milhares de anos, surge uma pergunta inevitável: há algum risco para a saúde humana?

Espaços vazios surgem na Sibéria devido ao degelo do permafrost. IMAGEM: www.wilderness-society.org

Durante muito tempo, imaginou-se que o gelo permanente das regiões polares fosse um ambiente biologicamente inerte. Hoje sabemos que não é. Sob a vasta camada de solo congelado do Ártico, conhecida como permafrost, encontram-se preservados inúmeros vestígios de ecossistemas antigos: raízes, sementes, restos de animais, tecidos orgânicos e uma imensa diversidade de microrganismos que permaneceram isolados durante milhares — e, em alguns casos, dezenas de milhares — de anos.

O permafrost começou a se formar durante as grandes glaciações dos últimos 2,6 milhões de anos. Nas regiões mais frias do hemisfério norte, o verão nunca chegava a descongelar completamente o solo. Assim, ano após ano, estabeleceu-se uma camada permanentemente congelada que, em alguns pontos da Sibéria, existe há centenas de milhares de anos.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Europa faz a escolha certa? Enquanto financia a guerra, compromete seu futuro climático

Nos últimos quatro anos de guerra na Ucrânia, União Europeia ampliou drasticamente seus gastos militares, mas avançou pouco na transição energética

Protesto "Welfare, not warfare" contra o rearmamento da União Europeia e da OTAN, ocorrido em 14.6.2026, em Roma (IMAGEM: il Fatto Quotidiano) e outras capitais europeias.

Desde o início do conflito militar em solo europeu, há 4 anos e meio, os países do bloco reduziram consideravelmente o consumo de gás e petróleo da Rússia, reorganizaram suas cadeias de abastecimento e passaram a tratar a segurança energética como uma questão de soberania nacional.

A guerra demonstrou que, quando há vontade política, a União Europeia é capaz de mobilizar, em poucos meses, recursos financeiros, capacidade industrial e instrumentos regulatórios de uma magnitude raramente observada. Então, por que essa mesma urgência não é evocada para cumprir suas próprias metas climáticas?

domingo, 12 de julho de 2026

Como nasce o desejo: de Platão a Lacan

Entre Penia e Poros, personagens do mito platônico de Eros, e o brilho do agalma, desenrola-se toda a história do desejo humano

Representação de Penia, deusa da carência
https://deusesgregos.com.br/penia/

Por que, depois de alcançarmos aquilo que tanto desejávamos, voltamos tão rapidamente a desejar outra coisa? Por que nenhum amor, nenhuma conquista profissional, nenhuma viagem ou nenhum bem material parece dissipar a sensação de que ainda nos falta algo?

Muito antes de a neurociência investigar os mecanismos do desejo, Platão e, mais tarde, Jacques Lacan propuseram algumas das interpretações mais profundas sobre a origem daquilo que nos move. Ao revisitar O Banquete, diálogo em que Platão narra a origem de Eros, Lacan desenvolveria um dos conceitos mais fascinantes da psicanálise: o agalma.

sábado, 11 de julho de 2026

O futuro do Universo depois de seus primeiros 13,8 bilhões de anos

O tempo cosmológico não termina no presente; o instante em que vivemos é apenas um ponto de passagem entre um passado finito e um futuro imensamente maior

Galáxia NGC 1300, localizada a 69 milhões de anos-luz de distância na constelação de Eridanus. Imagem capturada pelo Telescópio Espacial Hubble (HST): https://www.futura-sciences.com

Desde Darwin, aprendemos a pensar em "tempo profundo": uma história da Terra e da vida medida em milhões de anos. Décadas mais tarde, a geologia estabeleceria a idade do nosso planeta em 4,54 bilhões de anos. A cosmologia ampliaria esse horizonte para os 13,8 bilhões de anos do Universo observável.

Numa noite escura, longe das luzes da cidade, basta olhar para o céu para enxergarmos uma faixa luminosa mais clara. É a Via Láctea, nossa galáxia, composta por centenas de bilhões de estrelas. À primeira vista, tudo parece pertencer ao presente, mas na verdade boa parte daquela luz iniciou sua viagem há cerca de trinta mil anos.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Uso de ar-condicionado em larga escala é solução para enfrentar o calor extremo na Europa?

Tecnologia de climatização evoluiu muito nas últimas duas décadas, mas seu uso indiscriminado pode agravar o aquecimento das cidades

https://worldofgeek.fr/canicule-inventions-fraicheur-ecologie/

A onda de calor que assola diversos países europeus resulta da combinação de fenômenos climáticos e meteorológicos que ocorrem simultaneamente no norte e no sul do continente.

Na porção setentrional, destaca-se a redução do albedo — capacidade da superfície terrestre de refletir a radiação solar — provocada pelo derretimento do gelo marinho e da cobertura de neve no Ártico. Quanto menor essa refletividade, maior a absorção de energia solar e mais intenso o aquecimento da região.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Rossellini – Mais que uma Vida: o humanista inquieto

Documentário retrata últimos 20 anos do criador do neorrealismo italiano, que fez do audiovisual uma ferramenta para compreender o pensamento humano

Cartaz da minissérie sobre a Índia, dirigida por Rossellini. FONTE: google.com 

Existe uma coragem rara entre os grandes artistas: a de abandonar justamente aquilo que os tornou célebres. Roberto Rossellini teve essa coragem. Talvez seja exatamente essa a razão pela qual Rossellini – Mais que uma Vida tenha me emocionado tão profundamente.

Roberto Rossellini mostrado no documentário é bem distante da imagem cristalizada de "criador do neorrealismo". Essa condição histórica lhe pertence por direito; afinal, filmes como Roma, Cidade Aberta (1945), Libertação (1946) e Alemanha, Ano Zero (1948) mudaram definitivamente a linguagem cinematográfica do pós-guerra.

domingo, 31 de maio de 2026

Edgar Morin: ‘nenhuma razão histórica, religiosa, nacional ou militar pode suspender o valor universal da vida humana’

Apaga-se uma das vozes mais respeitadas do mundo intelectual contra o “genocídio” em Gaza, como o próprio filósofo classificava a atual “guerra” israelo-palestina

Até às vésperas de completar 105 anos, Edgar Morin recusou o silêncio diante da violência. Sobrevivente moral do século XX, fez de sua última grande intervenção pública uma defesa intransigente da vida humana em Gaza

Poucos intelectuais do século XX atravessaram tantas épocas, guerras, ideologias e rupturas históricas quanto o francês de origem judia Edgar Morin. Nascido em 1921, foi um crítico do stalinismo e participou da resistência francesa ao nazismo, mas foi também um pensador da ecologia e da globalização.

Sua grande contribuição foi a teoria do pensamento complexo, sistematizada na obra O Método (La Méthode), publicada em seis volumes entre 1977 e 2004, em que a complexidade é contraposta às ideias simplificadoras.

domingo, 10 de maio de 2026

Antártica – Quase uma Fábula: filme italiano expõe limites da ciência como mercadoria

Nos cinemas de Roma desde 7 de maio, obra une ficção científica, drama psicológico e crítica ética do capitalismo contemporâneo

https://www.instagram.com/p/DYAAQVqDEE8/

Aparentando uma “fábula”, como anuncia o subtítulo, o filme traz uma reflexão profundamente atual: como a ciência pode se tornar mercadoria e a longevidade extrema um privilégio para poucos.

Sob direção da estreante Lucia Calamaro, a obra é ambientada na Antártida, mas não por uma escolha meramente estética. O gelo é o símbolo central da narrativa; são microrganismos encapsulados em cilindros extraídos do permafrost que dão origem a uma fantástica descoberta científica.