segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Amazônia: redução acelerada da capacidade de absorver carbono é bomba-relógio para humanidade

Destruição da floresta e emissões agropecuárias contribuem para aquecimento planetário; governo brasileiro apresentou na COP26 dados de desmatamento falsos

Evolução do desmatamento na Amazônia, de 1985 a 2020: floresta nativa dando lugar à área de pasto (paturage) e para agricultura. De 2000 a 2020, a área desmatada destinada à pecuária cresceu 42% e a expansão da fronteira agrícola gerou uma área 77 vezes maior. Fonte: https://www.nature.com/articles/d41586-021-01871-6

A última Conferência das Partes (COP26) foi um festival de greenwashing: grandes lobbies poluidores fazendo publicidade do “ambientalmente correto” de seus grupos econômicos. O Brasil deu sua contribuição ao enorme blá-blá-blá da cúpula climática, pelo sofisma com que exibiu dados alentadores, porém falsos, do desmatamento amazônico.

O ministro do Meio Ambiente mostrou na COP26 que o desmatamento em 2021 foi de 10.308 km2, alegando que o valor fora obtido pelo Prodes (Sistema de Monitoramento por Satélite do Inpe), o que significaria uma redução de 5% em relação a 2020. Falso!

O número correto, divulgado pelo Inpe no último dia 18, foi o de 13.235 km2 de área devastada, entre julho de 2020 e agosto de 2021. Um aumento de 22% em relação ao período anterior, o maior valor já registrado desde 2006.

A estratégia do governo brasileiro para se justificar a posteriori -de que se tratou apenas de um “equívoco”- não passou despercebida pelos menos incautos: reteve os dados que o Inpe enviou ao Ministério de Ciência e Tecnologia bem antes do início da COP26.

A destruição acelerada da floresta Amazônica certamente nos levará a uma catástrofe planetária, apesar do acordo de proteção florestal firmado no mês passado em Glasgow por uma centena de países, incluindo Brasil, Canadá e Congo, entre outros, que abrigam juntos 85% das florestas primitivas do mundo.

Considerada pelos participantes da COP26 como essencial, para evitar que a temperatura global se eleve além de 1,5 oC em relação à era pré-industrial, o acordo prevê investimentos públicos e privados que chegam a quase 20 bilhões de dólares.

Globalmente, as florestas estão sendo reduzidas em um “ritmo alarmante”, conforme declarou o presidente britânico da COP: são 27 campos de futebol devastados por minuto!

E a desflorestação tem se acelerado nos últimos anos; apesar da recessão econômica imposta pela pandemia de Covid-19, o desmatamento de florestas primitivas cresceu 12% em 2020, em relação a 2019.

De acordo com o estudo “Sudeste da Amazônia não é mais um sumidouro de carbono” (Southeast Amazonian in no longer a carbono sink), publicado na revista Nature em 14.7.2021, nesta parte da floresta o sequestro de CO2 foi superado pelas emissões.

Com base em centenas de amostras coletadas em deferentes alturas entre 2010 e 2018, os autores mostram como a capacidade de absorver carbono do maior bioma tropical do planeta declinou simultaneamente à elevação da taxa de mortalidade das árvores.

De um pico de 2 bilhões de toneladas de CO2 estocados anualmente na década de 1990, a floresta atualmente dispõe de metade desta capacidade.

As emissões de gases de efeito estufa na América do Sul superaram pela primeira vez o estoque de carbono na Amazônia, uma consequência direta da região Sudeste da bacia Amazônica estar emitindo mais CO2 do que absorvendo.

As causas são a derrubada de árvores, os incêndios e a intensificação do aquecimento local. Menos vegetação, menos consumo de CO2 via fotossíntese.

Com a mata nativa dando lugar à expansão da agricultura e da pecuária, o carbono estocado no solo é liberado para a atmosfera, gerando mudança climática local e regional, que, por sua vez impacta o regime de chuvas.

A seca prolongada que o Brasil está vivendo este ano tem relação estreita com o desmatamento amazônico. Os reservatórios das barragens atingiram níveis críticos em várias regiões do país, obrigando o Operador Nacional a acionar termelétricas a combustível fóssil, fontes importantes de emissões poluentes.

Além de agravar a crise climática, o kWh gerado por termelétricas é mais caro e quem vai pagar a conta, pra variar, é o consumidor. O governo já anunciou um aumento de 19% da energia em 2022. 

Um estudo do Instituto Francês de Pesquisa para a Agricultura, Alimentação e o Meio Ambiente (Inrae, na sigla em francês) avaliou um aspecto até então pouco investigado, que é o impacto da “degradação” da floresta nativa sobre a perda de carbono.

Ao contrário do desmatamento, que gera áreas não arborizadas, a degradação produz no entorno de áreas desmatadas árvores frágeis, associadas à seca, oriundas de corte seletivo e pequenos incêndios. A pesquisa mostra que a perda de carbono por degradação é quase três vezes maior do que por desmatamento: 73% ante 27%.

Se a Amazônia -que abriga 50% das florestas tropicais do planeta, responsáveis pelo estoque anual de 450 bilhões de toneladas de CO2, em sua vegetação e no solo- se transformar em uma fonte permanente de CO2, o enfrentamento da crise climática se tornará ainda mais difícil e uma catástrofe ambiental poderá ser inevitável.

O território brasileiro dispõe de 60% de toda a floresta primária do globo. Segundo o estudo do Inrae, entre 2010 e 2019 a perda de biomassa da Amazônia brasileira gerou um déficit de carbono (quantidade absorvida menos a emitida) de 18%.

Os demais países que compõem a Amazônia Legal por enquanto estão compensando este desequilíbrio, afirma Jean-Pierre Wigneron, pesquisador do Inrae. “O conjunto da floresta Amazônica ainda não sucumbiu [à sua função de sumidouro de CO2], mas isto pode acontecer em breve”, diz Wigneron.

Na COP26, o governo brasileiro anunciou metas ambiciosas de redução das emissões de CO2 do país -menos 50% até 2030 e neutralidade de carbono até 2050- e de ações para conter o desmatamento. Pouca gente séria acreditou. A primeira eminência científica nacional a duvidar foi o físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe. Galvão alega que o atual governo não tem credibilidade internacional para cumprir o objetivo anunciado.

Basta olhar os números. Desde 2019, início da atual gestão federal, dominada por negacionistas nas pastas da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente e por gente ligada aos lobbies do agronegócio e da mineração, a Amazônia brasileira perdeu em média 10 mil km2 de biomassa por ano, contra 6,5 mil km2 na década anterior.

Como se não bastasse, a representação oficial do Brasil na COP26 apresentou dados falsos do desmatamento registrado no último período pelo sistema Prodes do Inpe. Sem falar no garimpo ilegal que avança solenemente sobre terras indígenas e que destruiu 606 km de rios no Pará, desde 2017.

Até 2016, a destruição dos rios na região era de 26,6 km por ano, segundo o Greenpeace Brasil. Nos 5 anos seguintes, a média saltou para 121 km/ano ou quase 5 vezes mais. Tudo sob a omissão do governo federal.

Dados do sistema Deter do Inpe mostram que 72% de todo o garimpo na Amazônia, entre janeiro e abril de 2020, ocorreu dentro de áreas de proteção ambiental. Nesses 4 meses, o desmatamento causado pela mineração ilegal em terras indígenas cresceu 13,4%. Tudo sob a omissão do governo federal.

O procurador do MPF que atua no Pará, Paulo de Tarso, afirma que o panorama do garimpo ilegal na região é “grotesco” e que há uma falta generalizada de ação do Estado brasileiro contra esta atividade criminosa. “Há um total desajuste dos responsáveis em tratar desse tema; as agências não têm funcionado”, diz de Tarso.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno -aquele que comandava as tropas pacificadoras no Haiti em 2005 durante o massacre em uma favela que vitimou centenas de haitianos e que o então presidente Lula demitiu após recomendação da ONU- autorizou este ano a execução de 7 projetos de exploração de ouro na região de São Gabriel da Cachoeira (AM), onde vivem 23 etnias indígenas.

Desde 2019, o comandante do GSI, homem próximo do presidente da república, já concedeu 81 autorizações de mineração na Amazônia. Algo inédito desde a criação do Conselho de Defesa, em 1927.

O legado do atual governo em relação à proteção da Amazônia pode ser resumido em três itens: 1) omissão deliberada na fiscalização; 2) falsificação de dados de desmatamento; e 3) recorde de concessões de novas explorações do subsolo em terras indígenas e áreas de preservação ambiental.

Diante de um quadro tão desolador, sensivelmente agravado a partir de 2019 e sem nenhuma perspectiva real de contenção do desmatamento e do garimpo ilegal no maior bioma tropical do planeta, quem acredita nos compromissos assumidos pelo Brasil na COP26?

Apesar de todo este descaso das autoridades, especialmente as nacionais, a Amazônia como um todo ainda exerce, juntamente com os oceanos, a função de “pulmão” do planeta. E não podemos deixar que este pulmão comece a “fumar”, como diz o título de uma matéria do Charlie Hebdo, satírico semanário francês. Nem que para isso, tenhamos de renunciar à nossa soberania na região.

Fontes: https://www.sciencesetavenir.fr/nature-environnement/plantes-et-vegetaux/l-amazonie-pres-du-point-de-non-retour-nous-allons-arriver-a-un-scenario-de-film-d-horreur_158828

https://www.msn.com/fr-be/actualite/other/cop26-le-br%C3%A9sil-et-plus-de-100-pays-s-engagent-%C3%A0-enrayer-la-d%C3%A9forestation/ar-AAQehgY?li=BBqj2K4

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/governo-bolsonaro-pos-em-documento-oficial-queda-irreal-de-desmate-e-levou-a-cop26.shtml?fbclid=IwAR2c94chW_vo8NAxiycC5SO5OdsPzlEh2ClALNaqLJ84yfYuyqEmatJAD7I

https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2021/11/18/nota-tecnica-inpe-desmatamento-amazonia-cop-governo-bolsonaro.htm

https://www.nature.com/articles/d41586-021-01871-6

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