segunda-feira, 14 de abril de 2014

‘Pandora’s Promise’: energia nuclear, remédio para o clima da Terra?

Filme exalta energia do átomo como única arma eficaz para combater mudança climática

http://www.youtube.com/watch?v=xmBpP74zzx4

“Promessa de Pandora”, documentário dirigido pelo inglês Robert Stone e lançado nos Estados Unidos no ano passado, tem como protagonistas ex-ativistas anti-nuclear convertidos a 100% pró-nuclear. 

Longe de propor um debate equilibrado sobre alternativas energéticas amigáveis ao planeta e seus habitantes, o filme é uma apologia à energia nuclear.

Pandora foi a primeira mulher da Terra, segundo a mitologia. Casou-se com o titã Epimeteu e dele ganhou de presente uma caixa, que guardava os males do mundo e que Epimeteu outrora recebera dos deuses. 

Movida pela curiosidade, Pandora abre a caixa, deixando escapar todos os males. Rapidamente ela a fecha de volta, conseguindo reter dentro dela uma única virtude: a esperança.

O mote de Pandora’s Promise é a esperança em um mundo com menos emissões de carbono, a partir de um novo paradigma energético: o uso disseminado de energia nuclear. 

A “trama” do filme tem como pano de fundo as consequências nefastas do aquecimento atmosférico antrópico sobre o meio ambiente, que poderiam afetar populações em várias partes do globo.

Para defender a energia do átomo como a única capaz de conter a crescente concentração de CO2 na atmosfera e atender à demanda elétrica global, o filme lança mão de expedientes bastante didáticos. 

A fissão nuclear – processo que libera uma quantidade enorme de energia – é explicada de forma bem criativa. Ratoeiras são disparadas “em cadeia”, à medida que bolas de pingue-pongue são lançadas sobre elas, após o disparo inicial provocado pela colisão de uma das bolas (alusão ao bombardeamento do núcleo atômico por nêutrons).

A história da energia atômica é contada em detalhes, desde a sua descoberta, o uso militar da radiação nuclear (a bomba que devastou Hiroshima), a concepção e realização do submarino nuclear – precursor das usinas elétricas – e o avanço tecnológico que viabilizou os reatores de última geração. 

A neutralidade em carbono no processo de geração elétrica seria a grande vantagem da energia nuclear. O documento destaca que a energia solar é muito cara e a eólica tem uma participação ínfima na matriz elétrica global, apesar dos altos investimentos em parques aerogeradores.

Não há como negar que o documentário de Stone é uma obra bem elaborada, que visa recolocar a energia nuclear na ordem do dia. E pode até arrebatar corações e mentes de expectadores mais incautos.

Por trás de uma temática vista por muitos como “maldita” e o filme dedica um bom tempo a chacotear ativistas que se mantém fieis à causa anti-nuclear – estão personagens humanos (ambientalistas recém-convertidos), prestando depoimentos com sincera convicção na “promessa de Pandora”. 

Engenheiros atestam a segurança dos reatores avançados, especialistas em desarmamento garantem a eficácia dos sistemas de proteção contra acidentes, mas não há referência alguma aos riscos da energia nuclear. Alguém acredita em risco zero?

Fukushima foi um dramático exemplo do risco de se instalar usinas nucleares em áreas propícias a ocorrência de terremotos e tsunamis. Mas não só desastres naturais podem fazer vazar material radiativo dos reatores, contaminando solo e água por anos a fio. 

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estima que 40 países possuam conhecimento técnico para produzir armas nucleares, entre eles Coreia do Norte e Irã.

Alguém acredita que esses países – e outros igualmente não democráticos como a China – usariam a energia nuclear em larga escala apenas para fins pacíficos? 

“A existência de um forte contrabando de artigos nucleares, mostra a insuficiência do atual sistema de controle de exportações”, diz Douglas Roche, chefe da delegação canadense que durante 20 anos acompanhou na AIEA o Tratado de Não-Proliferação de armas nucleares.

Com essas informações, já dá para vislumbrar que uma eventual escalada nuclear favoreceria o crescimento ainda maior de ameaças terroristas mundo afora. 

Por outro lado, é ingênuo pensar que a maior potência bélica do mundo (EUA) e seus aliados no Conselho de Segurança da ONU apoiem a instalação de usinas nucleares em países sem democracia, em regiões onde seus interesses geopolíticos sejam ameaçados.

A Alemanha, país onde boa parte da população se preocupa com questões ambientais, decidiu desligar todos os seus reatores nucleares até 2022. O Japão vai pelo mesmo caminho, após a tragédia de Fukushima, em 2011. 

Mas não seria plausível imaginar a energia nuclear fora da matriz energética mundial, pelo menos durante este século. Na França, por exemplo – país que tem investido muito em fontes renováveis – 75% da eletricidade é produzida por reatores nucleares; nos Estados Unidos, 19%.

Voltando à questão da mudança climática – argumento central de Pandora’s Promise – como então fazer face ao cenário global projetado para 2050? Como atender a uma demanda energética (que deve ser o dobro da atual) e ao mesmo tempo reduzir as emissões de carbono pela metade? 

A participação da energia nuclear na matriz energética global é de 2,5%. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que, se até 2050 for triplicado o número atual de reatores (458), as emissões de CO2 evitadas corresponderiam a 6% do total emitido.

Ora, a mesma fonte (AIE) projeta para 2050 um cenário resultante de ações de eficiência energética muito mais auspicioso: 38% de emissões de carbono evitadas. 

Nenhuma solução tecnológica “única” seria capaz de resolver a questão ambiental relacionada à mudança climática fenômeno resultante de uma teia complexa de problemas criados pelo homem, desde a Revolução Industrial.

Alguns deles são bem conhecidos: destruição massiva de florestas, uso intensivo de combustíveis fósseis, industrialização desenfreada, consumismo exacerbado, crescimento demográfico descontrolado.

Condenar alternativas energéticas baseadas em fontes renováveis, como a solar e a eólica, pelo argumento meramente econômico, é omitir os custos indiretos da energia nuclear, que não são desprezíveis.

São subsídios estatais que financiam a pesquisa nuclear nos países mais ricos, além dos custos consideráveis para prolongar a vida das usinas que atingem o limite de 40 anos, desde a implantação dos seus reatores.

Sem falar no “passivo” que representa a gestão e a estocagem de dejetos radiativos – material que permanece altamente tóxico durante milênios – e que seria deixado para futuras gerações.

Como diz o economista australiano John Quiggin, em seu artigo sobre o documentário Pandora’s Promise (publicado no The Guardian), relançar o debate sobre energia nuclear é pura distração.

E conclui: “para enfrentar o problema da mudança climática, precisamos gastar menos energia, usá-la mais eficientemente e produzi-la de forma sustentável”.

2 comentários:

  1. É um debate interessante que se perde muitas vezes no lado emocional do que técnico. Primeiro é que reduzem o problema ambiental ao problema de emissão de GEEs (gases de efeito estufa), quando na realidade a degradação ambiental é um problema de implicações sistêmicas e impacta em vários meios. A poluição dos rios e mares, a emissão de particulados, a criação de ilhas de calor antropica, poluições sonoras, visual, atmosférica são males de um mesma raiz.
    Em segundo lugar, nem essa virtude (não emissão de GEE) é assim tão pronunciada, já que apenas na operação não existe liberaçõa de CO2, mas na cadeia do uranio (desde a mineração até o enriquecimento) e mesmo da preparação dos reatores e usina o material utilizado é altamente devorador de energia e ambientalmente impactante. Em terceiro lugar os custos do descomissionamento (desmontagem e armazenamento com segurança por milenios da usina nuclear) é altamente subestimado e negligenciado, tornando a energia nuclear anti-economica. Toda vez que a energia nuclear sofre crise de credibilidade (a ultima foi Fukushima) existe a reação dos lobbies nucleares. E olhe que nem comentamos aqui o perigo associado como armazenamento, desvio de material, acidentes, terrorismo, contaminação radioativa etc.

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  2. Minha humilde opnião, toda vez que vejo alguém defender um ponto de vista que parece anti-senso comum alguém levanta a bandeira de "isto é lobby de algum empresario desvairado por dinheiro", quem é contra a energia nuclear é a empresa de petróleo que promove guerras para manter seu domínio. O medo do uso errado de qualquer coisa é muitas vezes exagerado. Até agora já morreu mais gente em uso errado de um avião que em acidentes radioativos. Nasci e moro em Goiania, e nem por isso destruímos nossos aparelhos de raio X, por medo de outro acidente como o do cesio 137. Trabalhei na geração e transmissão de energia eletrica e posso dizer que estamos tão longe de utilizarmos energia eólica ou solar quanto a de um dia eu ir a lua. Não venta toda hora e muitas vezes o céu está nublado. A simples poeira nas placas solares já derrubam sua eficiência já pequena. Um vento forte e inesperado derruba uma torre de geração eólica com uma eficiência que parece que não foi projetado para ficar em pé. No Brasil a melhor aposta é na hidroelétrica sacrificando o meio ambiente. A destruição ambiental destes dois meios de geração também é grande, mas mais facilmente reversível. Se parar para pensar imaginar que alguém ficaria pelado, descalço e molhado em baixo de uma fonte de energia elétrica como o chuveiro provavelmente não apoiaria tal aparelho. Imagine acender fogo a menos de dois metro de um botijão de gás como fazemos com nossos fogões? Com 75% da energia eletrica produzida por energia nuclear na frança e nem por isso ter um acidente? É de se pensar. Pode-se dizer que quando acontecer vai ser um desastre enorme que pode ser evitado, e eu diria que acidentes de aviões, petroleiros, trens, plataformas petrolíferas e etc. também poderiam ser evitados. Quando vi o documentário nem me lembrava da energia nuclear, mas sempre soube da ineficácia que é a energia eólica e solar como a conhecemos. A data do seu comentário é de mais de 2 anos e parece que só nos dois nos interessamos em manter o pensamento vivo, precisamos de mais ideias, de mais pessoas participando.

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