Nos cinemas de Roma desde
7 de maio, obra une ficção científica, drama psicológico e crítica ética do
capitalismo contemporâneo
Aparentando uma “fábula”, como anuncia o subtítulo, o filme
traz uma reflexão profundamente atual: como a ciência pode se tornar mercadoria
e a longevidade extrema um privilégio para poucos.
Sob direção da estreante Lucia Calamaro, a obra é ambientada na Antártida, mas não por uma escolha meramente estética. O gelo é o símbolo central da narrativa; são microrganismos encapsulados em cilindros extraídos do permafrost que dão origem a uma fantástica descoberta científica.
No filme, esses microrganismos preservados por milhares de
anos são metáforas da busca pela imortalidade, já que representam a possibilidade
de se “parar o tempo” e, assim, estender a longevidade humana para além de
limites imagináveis.
A protagonista Maria (Barbara Ronchi), uma especialista em
glaciologia, descobre uma membrana biológica capaz de conservar formas de vida
em estado latente durante milênios, abrindo caminho à criopreservação humana ou à prolongação radical da expectativa de vida.
A descoberta desloca imediatamente a narrativa do campo
científico para o filosófico. A questão crucial deixa de ser “isso funciona?” e
passa a ser “quem terá direito a isso?”. O grande mérito de Calamaro está em
evitar o clichê do cientista louco ou da corporação caricaturalmente maléfica.
O conflito é mais sofisticado.
O personagem Fulvio (Silvio Orlando), um pesquisador experiente
e pragmático, às voltas com uma doença fatal ligada à idade avançada, sabe da
importância do dinheiro para que os projetos científicos se tornem realidade.
Maria, ao contrário, encarna uma ética quase absoluta: sua
descoberta não deve ser apropriada pelo mercado, porque ela sabe que seus resultados
significariam um novo paradigma da condição biológica humana, permitindo aumentos
consideráveis de longevidade.
É precisamente neste ponto que o filme toca numa questão contemporânea extremamente sensível. A busca científica pela longevidade ilimitada deixou de ser apenas especulação filosófica.
Como observaram alguns críticos italianos, fundos bilionários, empresas de biotecnologia, pesquisas sobre telômeros, rejuvenescimento celular, criogenia e transferência de consciência transformaram o sonho de prolongar substancialmente a vida em um enorme mercado potencial.
Em Antártica, a multinacional interessada na descoberta não
deseja “salvar a humanidade”, mas sim comercializar sua sobrevivência. O capitalismo contemporâneo transforma essa possibilidade
numa mercadoria: vende-se não apenas juventude, mas a fantasia de escapar da própria
condição humana e sua inelutável finitude.
Maria percebe intuitivamente esse abismo ético. Entende que a
ciência perde sua dignidade quando deixa de buscar conhecimento para tornar-se
mecanismo de seleção biológica baseada em riqueza. Não se trata apenas de
“vender” uma descoberta. É permitir que o acesso ao tempo — o bem mais valioso da
existência — torne-se um ativo financeiro.
Calamaro evita o tom distópico explícito, trazendo uma
narrativa mais melancólica e humanista. O conflito ético surge em meio a
conversas amenas, afetos ambíguos e silêncios. Existe até uma regra dentro da
base científica: “ninguém pode gritar”. Sem falar na lúdica democracia interna,
para a tomada de decisões sobre o rumo das pesquisas, praticada pelos 10 integrantes
da base italiana.
Há também uma textura simbólica evidente na relação entre
Maria e Fulvio. Ele representa a geração que ainda acredita na ciência como
missão civilizatória, mas que precisa negociar com estruturas econômicas para
sobreviver. Ela busca impor um limite ético em torno dos resultados de sua pesquisa.
O conflito entre ambos vai além do aspecto intelectual; é afetivo e geracional.
Se a ciência contemporânea transforma a longevidade extrema em horizonte desejável, Antártica — Quase uma Fábula sugere que o verdadeiro dilema do futuro seja não apenas prolongar a vida, mas saber quem controlará economicamente o acesso ao tempo e à própria continuidade da consciência humana.

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