Documentário retrata últimos 20 anos do criador do neorrealismo italiano, que fez do audiovisual uma ferramenta para compreender o pensamento humano
Existe uma coragem rara entre os grandes artistas: a de abandonar justamente aquilo que os tornou célebres. Roberto Rossellini teve essa coragem. Talvez seja exatamente essa a razão pela qual Rossellini – Mais que uma Vida tenha me emocionado tão profundamente.
Roberto Rossellini mostrado no documentário é bem distante da imagem cristalizada de "criador do neorrealismo". Essa condição histórica lhe pertence por direito; afinal, filmes como Roma, Cidade Aberta (1945), Libertação (1946) e Alemanha, Ano Zero (1948) mudaram definitivamente a linguagem cinematográfica do pós-guerra.
Mas o documentário mostra que essa conquista nunca lhe bastou; sua personalidade rebelde o impulsionava à busca de novos horizontes. A narrativa acompanha a lenta e fascinante metamorfose de um homem que nunca aceitou permanecer prisioneiro da própria genialidade.
Dirigido pela tríade, Andrea Massara, Raffaelle Brunetti e Ilaria de Laurentiis, e lançado na Itália em 2025, o documentário foi exibido na Rússia pela primeira vez ontem (28.6.2026), encerrando a mostra 'A Verdade no Cinema', organizada em homenagem aos 120 anos do nascimento de Roberto Rossellini. A sessão aconteceu no cinema da histórica Galeria Tretyakov, em Moscou.
A obra não aborda a biografia completa de Rossellini. Seu recorte é outro, mais perspicaz e, a meu ver, mais sensível. Concentra-se no período de 1956 até a morte do artista, em 1977. Não enfoca os desdobramentos do neorrealismo na Sétima Arte, mas sim o homem que continuou se transformando depois de já haver conquistado um lugar definitivo na história do cinema.
Rossellini surge impulsivo, contraditório, apaixonado, muitas vezes incompreendido e permanentemente insatisfeito. Um homem que recusava qualquer acomodação intelectual. Há um aspecto recorrente no documentário que resume bem a polêmica em torno de seu desapego a um passado glorioso: as pessoas não aceitavam que ele quisesse fazer algo diferente.
Ao longo do filme, percebe-se que sua evolução artística é inseparável das pessoas que atravessaram sua vida. De maneira discreta, são especialmente as mulheres que atuam como âncoras de sua metamorfose.
A primeira delas é Anna Magnani, atriz principal de Roma, Cidade Aberta. Embora o relacionamento entre ambos pertença a um período anterior ao recorte cronológico do documentário, sua presença permanece como uma memória afetiva que jamais desapareceu. Não é apresentada como simples curiosidade biográfica nem como escândalo sentimental. O filme faz algo muito mais delicado.
Uma das cenas mostra Rossellini em seu funeral, em Roma. Não há grandes discursos nem qualquer excesso dramático. Aparece caminhando silenciosamente entre os presentes: uma imagem reveladora de que algumas pessoas jamais deixam verdadeiramente nossa vida. O tempo encerra relacionamentos, mas não apaga aquilo que ajudaram a construir dentro de nós.
Depois vem Ingrid Bergman. Ao lado da atriz sueca, Rossellini abandona gradualmente o neorrealismo para explorar um cinema muito mais íntimo, interessado menos nos acontecimentos exteriores do que nos conflitos da consciência humana. Solidão, culpa, crises conjugais e busca espiritual passam a ocupar o centro de sua obra.
Foi uma mudança que muitos não compreenderam à época. Hoje sabemos que aqueles filmes abriram caminho para boa parte do cinema moderno europeu. Mas Rossellini ainda estava longe de concluir sua transformação...
A chegada de Sonali Das Gupta coincide com outra mudança decisiva. A experiência indiana amplia seu horizonte cultural e modifica profundamente sua própria ideia de cinema. É provavelmente o momento mais radical de sua metamorfose.
Rossellini deixa de acreditar que a grande missão do audiovisual seja narrar histórias de ficção. Sem abandonar a linguagem cinematográfica, passa a interessar-se por algo muito mais ambicioso: utilizar a imagem em movimento para contar a própria história do pensamento humano.
Já não lhe basta criar personagens; quer entender como nasceram as ideias que moldaram a civilização. Daí a razão de seus filmes que tratam de figuras históricas, como Sócrates, Blaise Pascal, René Descartes, Santo Agostinho e Luís XIV. Não se trata de biografias convencionais, mas de uma investigação sobre a origem das ideias, da ciência, da filosofia, da política e da cultura ocidental.
Rossellini parece convencido de que o cinema cumprira brilhantemente sua missão artística durante o século XX, mas acredita que o audiovisual pode cumprir uma tarefa ainda maior: tornar-se um instrumento de divulgação do conhecimento. Essa talvez seja a maior descoberta oferecida pelo documentário. Rossellini não abandona o cinema; ele apenas renuncia a uma determinada ideia de cinema.
Na última etapa de sua metamorfose, encontra Silvia d'Amico, jovem colaboradora que o acompanha nos anos finais de sua vida. Ela simboliza um Rossellini plenamente convencido de que a missão do audiovisual já não era apenas emocionar ou entreter, mas ensinar o homem a compreender a aventura intelectual da humanidade.
Uma sequência emblemática, que tanto me impressionou, foi um trecho de sua conferência em uma universidade norte-americana. Em determinado momento, Rossellini afirma que ciência e moral devem caminhar juntas. Um pensamento que resume toda sua visão de mundo.
Rossellini admirava profundamente a ciência, mas para ele a descoberta científica em si não bastava. Era preciso se questionar: o que fazer com esse conhecimento? Para ele, a evolução da ciência sem o progresso moral poderia transformar-se em instrumento de destruição.
Impossível não lembrar Edgar Morin, que desenvolveria, por décadas após Rossellini, a ideia do pensamento complexo, insistindo justamente na impossibilidade de separar ciência, ética, cultura e condição humana. Ambos parecem compartilhar a mesma convicção: nenhum conhecimento possui verdadeiro valor quando se afasta da condição humana.
Há um outro detalhe dessa conferência que talvez tenha passado despercebido pela maioria dos espectadores, mas que imediatamente me chamou a atenção. Entre os presentes no anfiteatro, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, que fez de sua autoridade religiosa um instrumento de resistência à ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985.
A presença do arcebispo brasileiro parece dialogar silenciosamente com as palavras de Rossellini. Enquanto o cineasta afirmava que ciência e moral deveriam caminhar juntas, Dom Hélder representava, na plateia, uma vida inteira dedicada justamente à dimensão ética da existência.
Pouco depois, outro episódio histórico surge na tela. Rossellini entrevista Salvador Allende, para a elaboração do filme A Força e a Razão (1973). Sabemos hoje que aquele diálogo ocorreu poucos meses antes do golpe militar que mergulharia o Chile em uma longa e sanguinária ditadura.
Revê-lo hoje foi para mim particularmente emocionante, por ter vivido três anos no Chile, já no período de um paquidérmico processo de redemocratização do país. Ali construí amizades que preservo até hoje e aprendi que a memória histórica permanece viva nas pessoas muito depois de encerrados os acontecimentos. Assistir a um trecho da entrevista de Allende pelas lentes de Rossellini significou reencontrar uma parte dessa memória latino-americana que continua profundamente presente em minha própria história.
Mais uma vez, Rossellini demonstra aquilo que sempre buscou: não filmar simplesmente eventos, mas preservar o instante em que a História se torna experiência humana. É justamente essa dimensão "demasiadamente humana" — para lembrar Nietzsche — que torna o documentário tão especial.
Ele não retrata o artista como um mito. Mostra um homem repleto de contradições, impulsos, dúvidas, amores e mudanças de direção. Um homem que pagou o preço de recusar o conforto das certezas e que nunca teve receio de abandonar até mesmo suas maiores conquistas para continuar sua busca.
Ao longo da projeção, entendemos que sua verdadeira metamorfose não foi apenas artística. Foi intelectual e, sobretudo, humanista. O fundador do neorrealismo transformou-se em um historiador das ideias; o contador de histórias tornou-se um educador; o cineasta converteu o audiovisual em uma ferramenta para compreender a aventura do pensamento humano. Talvez seja esse seu maior legado.
Mais do que um documentário biográfico, é uma reflexão sobre a curiosidade, a liberdade de mudar de ideia e a responsabilidade moral do conhecimento. Em tempos em que a velocidade frequentemente substitui a reflexão, reencontrar um artista que acreditava ser impossível separar ciência, cultura, ética e humanidade torna-se uma experiência altamente comovente.
Ao final da sessão, entendi que Roberto Rossellini nunca pretendeu filmar heróis. Seu verdadeiro tema sempre foi o ser humano. E talvez seja justamente por isso que continue tão atual: porque sua maior obra não foi apenas uma filmografia extraordinária, mas a própria metamorfose de um artista em um humanista.

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