Apaga-se uma das vozes
mais respeitadas do mundo intelectual contra o “genocídio” em Gaza, como o
próprio filósofo classificava a atual “guerra” israelo-palestina
Poucos intelectuais do século XX atravessaram tantas épocas, guerras, ideologias e rupturas históricas quanto o francês de origem judia Edgar Morin. Nascido em 1921, foi um crítico do stalinismo e participou da resistência francesa ao nazismo, mas foi também um pensador da ecologia e da globalização.
Sua grande contribuição foi a teoria do pensamento complexo, sistematizada na obra O Método (La Méthode), publicada em seis volumes entre 1977 e 2004, em que a complexidade é contraposta às ideias simplificadoras.
Morin dedicou décadas a combater aquilo que
chamava de "pensamento mutilador": a tendência moderna de fragmentar
a realidade em compartimentos estanques — economia separada da política,
ciência separada da ética, indivíduo separado da sociedade.
Para o sociólogo francês, toda realidade humana é
contraditória: ordem e desordem coexistem; os fenômenos devem ser compreendidos
em suas interdependências; nenhuma ideologia explica sozinha a história; a
humanidade forma um destino comum planetário.
Sua filosofia rejeita tanto os dogmatismos
revolucionários quanto os nacionalismos identitários. Em vez de respostas
simples, Morin propõe compreender as relações entre fatores aparentemente
opostos: razão e emoção, indivíduo e coletividade, ciência e consciência moral.
Na questão israelense-palestina, seu
posicionamento não surgiu após 7 de outubro de 2023. Já em 2002 Morin causou
enorme controvérsia ao publicar, no jornal Le Monde, o artigo "Israel-Palestina:
o câncer", no qual argumentava que parte do Estado israelense reproduzia
mecanismos de opressão contra os palestinos. O texto levou a processos
judiciais por acusações de antissemitismo, dos quais acabou absolvido.
Era uma voz difícil de ser contestada, porque seus
argumentos eram os de um intelectual judeu que considerava legítima a
existência de Israel, mas que via a ocupação dos territórios palestinos como
uma tragédia moral e histórica.
Nos seus últimos anos de vida, especialmente após
o início da guerra em Gaza em outubro de 2023, Morin tornou-se uma das vozes
intelectuais mais contundentes da Europa contra a ofensiva do governo sionista
de Israel.
Em fevereiro de 2024, então com 102 anos,
declarou-se "chocado", "indignado" e profundamente abalado
diante do que chamou de carnificina em Gaza. Em evento literário no Marrocos,
denunciou os ataques contra civis e lamentou "o silêncio do mundo". A
intervenção teve grande repercussão internacional.
Na mesma época escreveu que, após o massacre
cometido pelo Hamas em 7 de outubro, Israel havia se engajado em um
"massacre maciço" da população de Gaza, atingindo continuamente
civis, a maior parte deles mulheres, idosos e crianças.
Ao longo de 2024 e 2025, Morin passou a utilizar
explicitamente o termo "genocídio" para caracterizar o que ocorria em
Gaza, acompanhando um movimento crescente de intelectuais, juristas e
organizações internacionais que defendiam a investigação dessa acusação.
Em tribunas públicas, denunciou não apenas o
governo de Benjamin Netanyahu, mas também a passividade das potências
ocidentais diante da devastação humanitária.
Em entrevista publicada pelo jornal Le Monde em
2026, Morin afirmou estar particularmente impressionado pela mobilização de
jovens em defesa dos palestinos e descreveu que se trata de uma população "em via de destruição", alertando para o risco de expulsão e
dispersão dos palestinos da Cisjordânia, estabelecendo um paralelo histórico
com diásporas e perseguições do passado.
Há uma coerência profunda entre a teoria da
complexidade e suas posições sobre Gaza. Morin nunca reduziu o conflito a uma
narrativa simplista de "bons" e "maus". Reconheceu a
gravidade do massacre de civis israelenses cometido pelo Hamas, mas, ao mesmo
tempo, insistiu que esse fato não poderia servir como justificativa para a
destruição sistemática de uma população inteira.
Em diversos textos, sustentou simultaneamente dois
princípios: o direito de Israel à existência; o direito dos palestinos à
autodeterminação e a um Estado próprio. Sua recusa em escolher um nacionalismo
contra outro é marcante em sua obra. Para Morin, a tragédia surge justamente
quando uma identidade coletiva passa a negar a humanidade da outra.
Nos últimos anos, Morin tornou-se uma espécie de
consciência moral da intelectualidade francesa. Sua denúncia do genocídio em
Gaza não partia de uma tradição antiocidental ou de um discurso revolucionário
clássico. Partia de algo mais elementar: a convicção de que nenhuma razão
histórica, religiosa, nacional ou militar pode suspender o valor universal da
vida humana.
Muito provavelmente foi por isso que suas declarações tenham produzido tanto impacto. Quando um sobrevivente do século XX — que testemunhou o nazismo,
o Holocausto, o stalinismo, as guerras coloniais e a Guerra Fria — afirma estar
diante de um nível de desumanização que o alarma profundamente, o faz como sociólogo
que estudou por mais de oitenta anos como civilizações inteiras podem perder o
senso da própria humanidade.
Talvez essa seja a mensagem derradeira de Edgar Morin sobre a Palestina, que vai além da denúncia do genocídio em curso em pleno século XXI. O pensador da complexidade lança um alerta à consciência humana: a barbárie não começa quando se mata, mas quando se deixa de reconhecer no outro um semelhante.
E é precisamente esse risco — o da perda da humanidade em nome de identidades, fronteiras ou razões de Estado — que ele viu ressurgir diante dos olhos do mundo nos escombros de Gaza.

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