Entre Penia e Poros, personagens do mito platônico de Eros, e o brilho do agalma, desenrola-se toda a história do desejo humano
Muito antes de a neurociência investigar os mecanismos do desejo, Platão e, mais tarde, Jacques Lacan propuseram algumas das interpretações mais profundas sobre a origem daquilo que nos move. Ao revisitar O Banquete, diálogo em que Platão narra a origem de Eros, Lacan desenvolveria um dos conceitos mais fascinantes da psicanálise: o agalma.
Em O Banquete, Platão apresenta um mito que se tornaria uma das mais belas alegorias sobre a condição humana. Eros, o deus do amor, não nasce da abundância nem da perfeição. Sua mãe é Penia, a personificação da pobreza, da carência e da falta. Seu pai é Poros, símbolo da astúcia, da inventividade e da capacidade de encontrar caminhos onde tudo parece perdido.
Essa genealogia revela uma verdade profunda: o desejo nasce da incompletude. Se estivéssemos plenamente satisfeitos, não desejaríamos absolutamente nada. É justamente porque algo nos falta que nos colocamos em movimento. Antes de ser uma experiência amorosa, Eros descreve a própria estrutura da existência humana.
Poros é comumente definido como "recurso" ou "expediente", mas talvez seja mais preciso compreendê-lo como a inteligência criativa da busca. Herdamos dele a capacidade de inventar novos caminhos sempre que nos deparamos com um obstáculo.
Quando um projeto fracassa, elaboramos outro. Quando um amor termina, somos impelidos a amar novamente. Quando uma conquista deixa de nos satisfazer, estabelecemos uma nova meta. Se Penia representa a origem da falta, Poros nos revela por que nunca desistimos de procurar.
Platão descreve Eros como um ser paradoxal. Nunca é plenamente pobre, porque sempre encontra um novo recurso. Nunca é plenamente rico, porque é incapaz de preservar aquilo que conquista. Vive permanentemente entre a escassez e a abundância, entre a falta e a esperança. É filho da incompletude.
Talvez possamos dizer que essa também é a condição humana. O homem é, por excelência, um ser de busca. Não porque ignore onde estão os objetos que deseja, mas porque nenhuma conquista consegue responder à nossa própria falta.
No final do discurso de Diotima sobre o desejo, em O Banquete, Platão introduz uma cena decisiva. Embriagado, Alcibíades invade o banquete e faz uma apaixonada declaração de amor a Sócrates. Curiosamente, não exalta sua beleza física porque, na realidade, Sócrates era considerado feio pelos padrões da época.
Para explicar seu fascínio, Alcibíades recorre a uma imagem inusitada. Compara Sócrates às antigas estátuas de Sileno: figuras grotescas por fora, mas que ocultavam pequenas imagens de deuses feitas em ouro ou marfim. Esse tesouro oculto possuía um nome na Grécia antiga: agalma, palavra que originalmente designava um objeto precioso ou uma oferenda votiva, cujo valor não estava na aparência externa, mas na riqueza escondida no seu interior.
A imagem do Sileno torna-se, assim, uma poderosa metáfora do desejo, porque sugere que aquilo que verdadeiramente buscamos não se encontra na superfície da pessoa amada. Há nela algo inapreensível, que parece escapar a qualquer descrição objetiva. Mas será que esse tesouro realmente existe?
É precisamente essa pergunta que Lacan procura responder em um dos conceitos centrais de sua teoria do desejo. Segundo ele, Alcibíades ama Sócrates porque acredita que ele guarda em seu interior um tesouro único. Esse tesouro, porém, não corresponde necessariamente a nenhuma qualidade objetiva. Não é inteligência, beleza, bondade nem qualquer outra virtude. É aquilo que o amante supõe existir no ser amado.
O agalma deixa então de ser um objeto religioso da cultura grega para se tornar um conceito psicanalítico: aquilo que imaginamos que o outro possui e que, acreditamos, poderá finalmente suprir nossa própria falta. É nesse ponto que Platão e Lacan parecem dialogar através dos séculos, revelando toda a atualidade do mito de Eros.
Enquanto Penia e Poros explicam a origem do desejo, o conceito de agalma explica a escolha de seu objeto. Porque somos seres da falta, procuramos alguém em quem imaginamos encontrar aquilo que nos completa. O agalma não cria o desejo. É a falta, simbolizada por Penia, que o faz nascer. Ele apenas reveste o objeto do desejo de um brilho invisível, levando-nos a crer que ele guarda justamente aquilo que nos falta.
A psicanálise chama de "economia do desejo" a lógica segundo a qual o desejo se organiza. Primeiro existe a falta. Da falta nasce o desejo. O desejo procura um objeto. Sobre esse objeto projetamos um agalma: um brilho, uma promessa, um tesouro invisível. Apaixonamo-nos. Mais cedo ou mais tarde, porém, descobrimos que o objeto conquistado não elimina nossa incompletude. O desejo então reinicia seu percurso.
Não se trata de um fracasso do amor. Trata-se da própria estrutura do desejo humano. Imagine alguém profundamente apaixonado. Aos seus olhos, a pessoa amada possui algo que ninguém mais possui. Não é apenas sua beleza, sua inteligência ou seu senso de humor. Existe um brilho difícil de explicar, uma singularidade quase sagrada. O apaixonado, entretanto, tem absoluta convicção de que encontrou algo único. É precisamente esse "algo" que Lacan chama de agalma.
Com o passar do tempo, porém, o amor atravessa provas inevitáveis. Descobre-se que o outro não era, objetivamente, aquele tesouro imaginado. Alguns relacionamentos terminam nesse momento. Outros, começam exatamente ali, porque deixam de depender da fantasia da completude, para reconhecer o outro em sua humanidade, igualmente marcada pela falta.
Se Platão e Lacan estiverem corretos, a sociedade contemporânea talvez tenha descoberto como nenhuma outra a maneira de explorar essa estrutura do desejo.
As redes sociais não inventaram Penia. A falta sempre existiu. Também não criaram Poros. A criatividade humana sempre buscou caminhos para preencher sua incompletude. O que o mundo digital aperfeiçoou foi a produção em massa de agalmas.
Imagens cuidadosamente publicadas de corpos idealizados, viagens paradisíacas, restaurantes exóticos, influenciadores aparentemente felizes, produtos para rejuvenecer, terapias milagrosas, suplementos supereficazes, lives que prometem transformar vidas apresentam-se como portadores de algo invisível: felicidade, reconhecimento, pertencimento, juventude ou sucesso.
Não compramos apenas objetos de desejo. Compramos promessas. Não desejamos apenas pessoas, mas também aquilo que imaginamos que elas escondem em seu interior. Talvez os algoritmos tenham aprendido a explorar isso melhor do que nós mesmos. Seu objetivo não é satisfazer o desejo, mas mantê-lo permanentemente em circulação.
Cada clique oferece um novo agalma. Cada rolagem da tela apresenta outra promessa de completude. Nunca chegamos ao último vídeo. Nunca encontramos a imagem definitiva. Nunca adquirimos o produto ideal. Não porque a tecnologia seja o problema, mas porque aprendeu a operar sobre uma estrutura muito mais antiga do que ela.
Platão acreditava que Eros poderia ascender até a contemplação da Beleza em si, onde o desejo finalmente encontraria repouso. Lacan é mais cético. Para ele, não existe um objeto capaz de eliminar definitivamente a falta estrutural que constitui o sujeito. Talvez ambos, no entanto, concordassem em um ponto essencial: o homem não é definido por aquilo que possui, mas por aquilo que procura.
Do ponto de vista mitológico, continuamos filhos de Penia e Poros. Herdamos de Penia a incompletude. Herdamos de Poros a criatividade para jamais desistir da busca. Entre os dois surge Eros, a força da vontade que continua a mover nossas escolhas, nossos amores, nossos projetos e nossas esperanças.
O agalma talvez seja apenas o nome que damos à expectativa de que, finalmente, encontraremos aquilo que responderá ao vazio que nos acompanha desde sempre. Mas essa promessa nunca se cumpre. E é precisamente essa impossibilidade que mantém o desejo vivo e faz dele uma das mais belas e profundas expressões da condição humana.

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