quinta-feira, 13 de agosto de 2026

'L’Âme idéale': uma eutanásia espiritual para quem ainda não aceitou morrer

Entre vivos e mortos, uma comédia romântica sobre amor, perda e desapego

Cartaz do filme 'A alma ideal', primeiro longa-metragem de Alice Vial, lançado na França em dezembro de 2025; em Moscou, este mês.

Há uma ideia paradoxal em L’Âme idéale, filme francês dirigido por Alice Vial: morrer nem sempre é suficiente para estar morto. Algumas pessoas que deixaram a vida continuam presas a ela, incapazes de compreender ou aceitar inteiramente sua nova condição.

E é justamente aí que entra Elsa, a protagonista do filme: ela vê os mortos, conversa com eles e, principalmente, ajuda-os a partir. Uma estranha missão, que pode ser definida por uma expressão aparentemente contraditória: eutanásia espiritual.

A palavra eutanásia deriva do grego e significa originalmente “boa morte”. O sentido contemporâneo está associado ao ato deliberado de abreviar a vida diante de determinadas circunstâncias de sofrimento.

Mas, em L'Âme idéale, o significado etimológico da palavra parece adequado ao papel desempenhado por Elsa. Ela proporciona aos mortos uma espécie de segunda morte — não a do espírito, mas a morte de seu apego a uma ilusória condição de vivo.

Interpretada por Magalie Lépine-Blondeau, Elsa possui desde a infância a capacidade de ver e conversar com pessoas mortas. Não se trata, porém, de uma médium atormentada por aparições ameaçadoras.

Ela incorporou essa convivência à sua vida cotidiana e, trabalhando como médica em uma unidade de cuidados paliativos, tornou-se uma espécie de intermediária entre dois mundos. Os mortos continuam a procurá-la, e ela os ajuda a compreender que sua existência terrena terminou.

Tudo se complica quando conhece Oscar, vivido por Jonathan Cohen. Ele é divertido, sedutor e nada em sua presença o distingue dos vivos. Elsa se deixa envolver por ele até descobrir algo que o próprio Oscar ainda ignora: ele morreu.

É nesse momento que L’Âme idéale, aparentemente apenas mais uma variação de temas já explorados em filmes como Ghost e O Sexto Sentido, permite uma associação inusitada com uma tradição nascida na França, mas que poucos franceses conhecem: o Espiritismo de Allan Kardec.

Em meados do século XIX, o educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo Allan Kardec, sistematizou uma doutrina baseada, entre outros princípios, na permanência da consciência após a morte e na possibilidade de comunicação entre espíritos encarnados e desencarnados.

Mas Alice Vial não parece interessada em formular qualquer teoria sobre o além. Suas referências assumidas pertencem muito mais ao universo do cinema fantástico e romântico. O sobrenatural funciona especialmente como dispositivo narrativo para falar do amor, da perda e da finitude.

Ainda assim, quem conhece O Livro dos Espíritos dificilmente deixará de perceber uma curiosa aproximação. No capítulo dedicado à volta do Espírito ao mundo espiritual, Kardec pergunta, na questão 163: “A alma tem consciência de si mesma imediatamente após deixar o corpo?” A resposta é negativa. Segundo o livro, ela passa algum tempo em um estado de “perturbação”.

A questão seguinte acrescenta que esse estado não possui a mesma duração para todos. Alguns entenderiam rapidamente sua nova situação; outros permaneceriam durante mais tempo sob aquilo que Kardec chama de “impressão da matéria”.

Mas é na questão 165 que a afinidade com L’Âme idéale se torna ainda mais significativa. Kardec descreve a morte como um momento em que tudo pode inicialmente parecer confuso. A alma precisaria de algum tempo para reconhecer sua nova condição, como alguém que desperta de um sono profundo e tenta entender onde se encontra.

E acrescenta uma observação ainda mais reveladora: nos casos de morte violenta ou inesperada, o Espírito pode ficar atordoado e não acreditar que morreu. É inevitável não pensar em Oscar.

Sua condição no filme corresponde precisamente a essa ideia de “perturbação” pós-morte. Ele pensa, fala, deseja e se apaixona. Sua consciência continua funcionando e, justamente por isso, lhe parece absurda a ideia de estar morto: afinal, ele pensa e sente.

É essa a contradição descrita por Kardec: a continuidade da consciência impediria, em certos casos, que o desencarnado reconhecesse a interrupção da vida corporal.

Aqui há uma notável convergência narrativa entre o filme e o ensinamento kardecista. Inúmeras histórias anteriores e posteriores à sistematização do Espiritismo exploraram a figura do morto que desconhece a própria morte. Mas a coincidência conceitual é evidente demais para não merecer atenção.

Há, no entanto, claras diferenças. Os mortos de L’Âme idéale são representados com o aspecto físico dos vivos. Conservam aparência, gestos, desejos e formas de interação idênticas. Oscar precisa continuar suficientemente “humano” para que a relação amorosa com Elsa funcione cinematograficamente.

Essa materialidade corporal é sobretudo uma necessidade narrativa: o espectador precisa ver aquilo que Elsa vê. O cinema precisa dar corpo ao invisível.

Kardec, ao contrário, constrói uma distinção explícita entre o corpo material e o Espírito imortal, embora introduza a noção de "perispírito" como envoltório semimaterial. Assim, a semelhança física que os mortos conservam no filme passa longe dessa ideia, pois trata-se apenas uma convenção cinematográfica.

Mas o essencial da narrativa está no que acompanha a condição do espírito desencarnado: o apego. Os mortos continuam ligados a pessoas, lugares, desejos e situações pertencentes à vida que deixou de existir. Não basta que o organismo tenha morrido; há neles algo que foge à compreensão de que aquele mundo deixou de lhes pertencer.

É aí que Elsa exerce sua peculiar função: oferecer uma espécie de eutanásia espiritual. No entanto, para o Espiritismo kardecista, o Espírito é imortal. Então, rigorosamente falando, seria contraditória a expressão “eutanásia espiritual”, já que espíritos não morrem. É justamente esse paradoxo que torna a expressão interessante. O que a protagonista ajuda a morrer é a persistência imaginária da condição de vivo.

Sua tarefa consiste em desfazer a conexão da pessoa com uma existência que já terminou. Ela conduz o morto ao reconhecimento de sua própria morte. Vista dessa maneira, sua tarefa possui algo de eutanásia no sentido original da palavra: possibilitar uma “boa morte”, completar pacificamente uma passagem biologicamente finda, mas que a consciência ainda não assimilou.

E então acontece aquilo que transforma uma ideia engenhosa numa verdadeira comédia romântica: a mulher que passou a vida ajudando os mortos a partir encontra finalmente alguém que deseja desesperadamente que fique: Oscar.

A personagem que sabe explicar aos outros a necessidade do desapego descobre que o conhecimento é muito mais simples quando a perda pertence aos outros. Diante do homem por quem se apaixona, Elsa enfrenta exatamente aquilo que procura resolver nos mortos que a procuram: a recusa em abandonar aquilo que ama.

Surge então uma delicada simetria entre os dois. Oscar precisa aceitar que morreu. Elsa precisa aceitar que Oscar morreu. Ele precisa deixar o mundo dos vivos; ela precisa deixar partir aquele que ama. É nessa simetria que se revela uma das ideias mais sutis do filme: os mortos como metáfora dos vivos.

A diretora do filme, Alice Vial, declarou que sua intenção era tratar, por meio da figura do fantasma, de questões ligadas à morte, à solidão e ao amor. Sua concepção é a de que a morte faz parte do amor porque toda história amorosa, de uma maneira ou de outra, possui um fim. E isso desloca definitivamente L’Âme idéale do terreno religioso para o existencial.

Os mortos do filme podem então ser vistos como uma radicalização de algo que fazemos continuamente durante a vida: permanecer ligados ao que já terminou. Relacionamentos que acabaram, pessoas que perdemos, lugares aos quais não voltaremos, juventudes distantes, projetos abandonados, versões anteriores de nós mesmos — que carregamos conosco como pequenos fantasmas.

Talvez por isso o título original francês seja particularmente feliz. L’Âme idéale — “A alma ideal” — não fala apenas do espírito dos mortos. Sugere também a procura daquele outro ideal no qual projetamos a possibilidade de nossa própria completude.

Já o título adotado na Rússia, onde assisti ao filme, Между небом и землёй — “Entre o céu e a terra” — enfatiza outra dimensão: o espaço intermediário ocupado por quem já deixou um mundo, mas ainda não chegou ao outro. Oscar encontra-se exatamente aí. Mas, durante boa parte do filme, Elsa também. Ela vive biologicamente entre os vivos, mas sua intimidade permanente com os mortos a afastou da possibilidade de uma existência afetiva plena. Paradoxalmente, é um morto que a reconduz à plenitude da vida.

Talvez seja essa a ironia mais interessante do filme. Elsa vive ajudando mortos a entender que precisam morrer. Oscar, ao contrário, acaba mostrando a Elsa que ela precisa viver. A “eutanásia espiritual” revela então seu duplo sentido. De um lado, significa ajudar o morto a abandonar sua antiga existência; de outro, permitir que o vivo abandone aquilo que já não pode preservar.

Nesse ponto, Kardec deixa de ser apenas uma curiosidade histórica francesa e torna-se um contraponto particularmente sugestivo. A “perturbação” descrita em O Livro dos Espíritos pode ser lida como uma poderosa metáfora da dificuldade humana diante da perda: sabemos que alguma coisa acabou, mas uma parte de nós continua vivendo como se ela ainda existisse.

É assim que uma comédia romântica sobre uma mulher que conversa com fantasmas acaba tocando numa questão muito mais ampla do que a existência ou não de vida após a morte.

L’Âme idéale não precisa provar que os mortos continuam vivos. Basta-lhe mostrar que, muitas vezes, os vivos têm enorme dificuldade em deixar seus mortos partirem.

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