sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Resfriamento passivo: da física da radiação solar ao planejamento das cidades

A partir do conceito de 'cidades brancas', um conjunto de estratégias orienta atualmente políticas de adaptação climática em diversas partes do mundo

Conversão de telhado em Nova York, via programa NYC CoolRoofs, usando tinta de alta refletância solar e emitância infravermelha. FOTO: Ben Huff/Untapped Cities

Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento das cidades foi orientado principalmente pela expansão da infraestrutura, da mobilidade e da atividade econômica.

Somente nas últimas décadas ficou evidente que o ambiente urbano também exerce uma influência decisiva sobre o clima local. Materiais empregados em edifícios, ruas e calçadas absorvem grandes quantidades de radiação solar ao longo do dia e a devolvem lentamente para a atmosfera, intensificando o fenômeno conhecido como ilha de calor.

Esse aquecimento é agravado por outro elemento característico das grandes cidades: o uso crescente de aparelhos de ar-condicionado. Embora proporcionem conforto térmico no interior das edificações, esses equipamentos transferem calor para o ambiente externo, elevando ainda mais a temperatura das ruas e aumentando a demanda por eletricidade.

Forma-se, assim, um círculo vicioso: quanto mais faz calor, maior o consumo de energia, que por sua vez contribui para intensificar o próprio problema. Desde o início do século, porém, uma estratégia baseada em um princípio físico bastante simples passou a ganhar espaço no planejamento urbano: aumentar o "albedo" das superfícies.

Albedo é a fração da radiação solar refletida por um material. Quanto maior seu valor, menor a energia absorvida e menor o aquecimento das estruturas urbanas e do ar ao seu redor.

Foi esse princípio físico que inspirou o conceito das chamadas "cidades brancas", nomenclatura que remete à maior refletância das superfícies claras e representa muito mais do que uma escolha estética. Trata-se de um conjunto de estratégias voltadas para reduzir a absorção de calor pelas edificações e pelos pavimentos urbanos, diminuindo o consumo de energia para climatização e mitigando as ilhas de calor.

Embora o termo "cidades brancas" enfatize o uso de superfícies de elevada refletância, as estratégias atuais vão muito além da cor dos materiais. Elas integram um conjunto de soluções passivas — como arborização, sombreamento, telhados verdes e pavimentos frios — destinadas a reduzir a temperatura urbana e aumentar a resiliência das cidades às mudanças climáticas.

Um dos principais responsáveis por transformar o princípio físico da redução do albedo em estratégia de planejamento urbano foi o engenheiro americano Hashem Akbari. Durante mais de duas décadas, Akbari coordenou estudos no Lawrence Berkeley National Laboratory sobre o impacto da refletância das superfícies urbanas no consumo de energia e na temperatura das cidades. Entre os trabalhos mais conhecidos está o estudo realizado em Sacramento, na Califórnia, publicado em 2009.

A pesquisa mostrou que edificações com coberturas e fachadas mais refletivas podem reduzir cerca de 40% da energia consumida para climatização durante o verão, em comparação com construções de superfícies escuras, sob determinadas condições climáticas. Mais do que economizar eletricidade, os resultados demonstraram que materiais urbanos poderiam ser utilizados como instrumentos de controle climático em escala urbana.

Na época, a proposta era vista principalmente como uma medida de eficiência energética. Poucos imaginavam que, poucos anos depois, ela passaria a integrar as estratégias de adaptação às mudanças climáticas adotadas por diversas cidades ao redor do mundo.

Los Angeles tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação. Em seu Plano de Ação Climática atualizado em 2026, a cidade ampliou programas de pavimentos refletivos, telhados frios, arborização e criação de áreas sombreadas para reduzir os impactos das ondas de calor, que se tornaram cada vez mais frequentes no sul da Califórnia. A meta deixou de ser apenas economizar energia: trata-se agora de proteger a população diante de eventos climáticos extremos.

Nova York seguiu caminho semelhante. De 2009 a 2019, o programa NYC CoolRoofs já aplicou cerca de 930 mil m² em revestimentos refletivos, reduzindo a temperatura das edificações durante o verão e diminuindo a necessidade de ar-condicionado em bairros densamente urbanizados.

Na Índia, Ahmedabad tornou-se referência internacional após implantar um dos primeiros Planos de Ação contra Ondas de Calor do mundo. Entre suas iniciativas está a instalação de milhares de telhados refletivos em residências populares, capazes de reduzir significativamente a temperatura interna das moradias e oferecer maior proteção às populações mais vulneráveis.

Em Melbourne, na Austrália, telhados frios passaram a integrar uma estratégia mais ampla de adaptação climática, juntamente com coberturas vegetadas, aumento da arborização e materiais urbanos de alta refletância.

Paris também incorporou soluções semelhantes, criando corredores de resfriamento, áreas de refúgio climático e incentivando o uso de materiais capazes de reduzir a absorção de calor em edifícios e espaços públicos.

Apesar das diferenças entre essas cidades, todas compartilham uma mesma compreensão: o combate às ilhas de calor não depende de uma única tecnologia, mas da combinação de diferentes soluções passivas. Superfícies refletivas, árvores, telhados verdes, pavimentos frios, ventilação natural e áreas sombreadas passaram a ser concebidos como componentes de uma nova infraestrutura climática urbana.

Paradoxalmente, essa abordagem representa também um retorno ao passado. Muito antes da existência do ar-condicionado, cidades do Oriente Médio, Norte da África e região do Mediterrâneo já utilizavam paredes caiadas, pátios internos e materiais de alta refletância para enfrentar o calor intenso. A arquitetura vernacular havia desenvolvido empiricamente o que a física da radiação solar e a climatologia urbana vieram demonstrar séculos depois.

Hoje, diante da emergência climática, a ciência não apenas confirma a eficácia dessas soluções tradicionais, como também lhes atribui um novo papel. O conceito de "cidades brancas" evoluiu para um conjunto de estratégias que combina superfícies refletivas, arborização, telhados verdes e outras soluções passivas para enfrentar o calor extremo. Num planeta cada vez mais quente, refletir a luz do Sol deixou de ser apenas uma característica dos materiais de construção. Tornou-se uma das formas mais inteligentes de adaptar as cidades ao clima do século XXI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário