sexta-feira, 26 de março de 2010

O que, de fato, move o pêndulo climático?

'Enquanto a atmosfera é rápida e ágil e responde rapidamente aos toques do oceano, o oceano é pesado e lerdo.' George Philander, climatologista da Universidade de Princeton.

Brian Fagan
A citação acima e o texto abaixo foram extraídos do livro “O Aquecimento Global – a influência do clima no apogeu e declínio das civilizações”, do antropólogo britânico Brian Fagan (São Paulo: Larousse do Brasil, 2009).

Como os agricultores de subsistência atuais, os do ano de 1200 não deixavam que nada se perdesse, mesmo em um ano bom como esse. Basta observar as rugas profundas que marcam o rosto dos adultos para entender. Até os homens e mulheres na casa dos 20 anos parecem velhos, as fisionomias debilitadas pelo trabalho e pela fome ocasional ou pela má alimentação. Contudo, essas pessoas viviam em um mundo mais quente do que fora por muitos séculos, que os climatologistas chamam de Período de Aquecimento Medieval.

Mil anos atrás, tudo na Europa dependia da agricultura. Da Inglaterra e Irlanda até a Europa Central, 80 a 90% da população lutava para ganhar a vida – e, com sorte, comida extra – do solo. A Europa era um continente de agricultores de subsistência, que viviam de colheita em colheita, cujo destino dependia dos caprichos das chuvas e da temperatura.

Havia muito menos gente, então. A população de Londres ultrapassava a casa dos 30 mil habitantes pela primeira vez em 1170. As populações conjuntas da França, Alemanha, Suíça, Áustria e Holanda somavam aproximadamente 36 milhões de pessoas em 1200, e hoje somam mais de 250 milhões. Quase todas essas pessoas viviam em aldeias e vilarejos, ou talvez cidades pequenas, pois as grandes cidades estavam apenas começando a ser um elemento significativo na vida européia. E todos, até mesmo o “grande senhor”, dependiam de uma zona rural cultivada sem máquinas, sementes híbridas ou fertilizantes. Cavalos e bois, e até as esposas, puxavam o arado e o rastelo. A colheita era reunida com as mãos, carregada nas costas das pessoas, talvez transportada até o mercado por uma carroça puxada por bois ou por barcaças.

Londres medieval
Cada agricultor sabia que a terra cultivável precisava ser arada e fertilizada por animais, e depois descansar para recuperar sua fertilidade e minimizar a ocorrência de pragas nas plantas. Os solos mais leves, com melhor irrigação, recebiam as plantações de cereais. Os animais se alimentavam nos bosques e em pasto aberto nos solos mais pesados, argilosos. Sua única proteção contra as secas, tempestades ou geadas repentinas era uma plantação mais diversificada, baseada muito mais em variedades, além dos cereais.

Ganhar a vida com o solo medieval europeu nunca foi tarefa fácil, mas era o que se fazia e, às vezes, com sucesso considerável, especialmente durante os verões mais quentes e secos. Os agricultores da Inglaterra e França cultivavam principalmente trigo, cevada e aveia. Ervilhas e feijões, ricos em vitaminas, eram plantados nos campos no início da primavera e colhidos no outono; os legumes ficavam nas plantas até secarem, e os caules eram plantados de volta como fertilizantes. Legumes e hortaliças de todos os tipos completavam o que era basicamente uma dieta sem carne, à base de pão e mingau.

A maioria dos agricultores tinha uma pequena criação de animais – uma ou duas vacas leiteiras, alguns porcos, ovelhas, cabras e galinhas e, os que tinham sorte, um cavalo ou alguns bois, ou pelo menos acesso a eles para arar. Os animais forneciam carne e leite, e também as peles e a lã.

Todo ano, enquanto o verão amadurecia para dar lugar ao outono, cada comunidade fazia sua colheita e agradecia a Deus pela generosidade, pois a vida não era fácil. O interminável ciclo das estações definia a existência humana. Assim como a rotina da semeadura, o desenvolvimento da plantação e a colheita; a realidade do nascimento, vida e morte; e todos acreditavam que esses eram os desígnios arbitrários do Senhor.

Em uma era muito anterior à da previsão do tempo, todos, fossem reis ou nobres, senhores de guerra, mercadores ou lavradores, estavam à mercê dos ciclos em que se alternavam chuvas pesadas e períodos de seca, tempestades violentas e dias perfeitos de verão. Eram parceiros involuntários em uma dança climática intrincada conduzida pela atmosfera e pelos oceanos. Mas, especialmente entre os anos 800 e 1300, a dança foi lentamente adquirindo o ritmo mais lento de uma valsa, onde o calor do verão e condições mais estáveis tendiam – ressalte-se: "tendiam" – a ser norma. Os giros da mudança climática desaceleraram momentaneamente. A Europa mudou profundamente durante esses cinco séculos, que vão de 800 a 1300, o Período de Aquecimento Medieval.

As mudanças de temperatura relativamente pequenas desses séculos são mínimas quando comparadas àquelas do fim da última Idade do Gelo. Cerca de 12 mil anos atrás, o mundo entrou em um período de aquecimento global prolongado, conhecido pelos geólogos como holoceno, que continua até hoje. Gerações de cientistas, trabalhando com dados inadequados, criaram imagens de mais de dez milênios de clima basicamente moderno, com mudanças relativamente pequenas desde o aquecimento que se seguiu à era do gelo. Mas uma revolução na paleoclimatologia transformou nosso conhecimento do holoceno nos últimos anos. Podemos agora discernir, não apenas oscilações de inverno e verão de um milênio atrás, mas também ciclos muito mais curtos, principalmente nos últimos dois mil anos. Algumas mudanças climáticas duram um século ou uma década; outras, como os fenômenos causados pelo El Niño, não duram mais do que aproximadamente um ano.

Poucos acontecimentos climáticos importantes permaneciam por períodos maiores do que uma geração e, por isso, eram rapidamente esquecidos em épocas em que a expectativa de vida era de pouco mais de trinta anos. A nova climatologia nos mostrou que o relógio climático pode acelerar ou diminuir a velocidade, recuar ou mudar de direção subitamente e, até mesmo, permanecer estável por longos períodos de tempo, mas ele nunca para.

Ninguém sabe exatamente o que move o pêndulo climático. É bem provável que pequenas mudanças na inclinação da Terra provoquem alterações no clima, assim como os ciclos de atividade solar. Nos últimos anos, entretanto, a maioria dos climatologistas passou a acreditar que interações complexas, embora ainda pouco compreendidas, entre a atmosfera e o oceano desempenham um papel muito importante nas alterações climáticas.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cinema & Literatura

João Batista de Brito é doutor em letras e foi professor de literatura inglesa na Universidade Federal da Paraíba durante 25 anos. Crítico de cinema, é autor de vários livros, entre eles, “Hollywood em outras línguas: a tradução de títulos de filmes e seus problemas” (João Pessoa: Editora UFPB, 2009), “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006) e “Um beijo é só um beijo – minicontos para cinéfilos” (João Pessoa: Manufatura, 2001); em todos eles o autor aborda a relação simbiótica entre cinema e literatura.

Em seu último livro, "Hollywood em outras línguas...", João Batista de Brito analisa as traduções de 20 títulos de filmes norteamericanos no Brasil e em outros quatro países: Espanha, França, Itália e Alemanha. Por exemplo, um dos estudos de caso é o clássico de Hitchcock “Vertigo” (em português, Vertigem), intitulado no Brasil como “Um corpo que cai”, na Espanha “No meio de mortos”, na França “Suores frios”, na Itália “A mulher que viveu duas vezes” e na Alemanha “No reino dos mortos”.

Para João Batista, as reintitulações – que refletem obviamente intenções mercadológicas – guardam relações estreitas com o perfil antropológico de cada país. O autor mostra que títulos com tradução livre, que chegam a ser estapafúrdios, não são exclusividade do Brasil. Há casos, inclusive, de países homófonos - como Argentina e México - com reintitulações distintas de um mesmo filme hollywoodiano.

Confira abaixo a entrevista de João Batista de Brito ao jornal discente da UFPB Extremo Oriental*, em 2007.

E.O. – Enquanto o cinema acaba de completar um século de vida, são 25 séculos de literatura, desde as tragédias gregas de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. É possível fazer uma avaliação geral sobre as adaptações de obras literárias à sétima arte? A literatura – clássica ou moderna – revigorou-se com o advento do cinema, ou apenas serviu para consagrar essa nova arte?

J.B.B. – Esta é uma questão genérica demais para se dar uma opinião definitiva. Acho que, com a prática da adaptação ao longo do século XX, houve uma troca entre as duas linguagens, com lucros eventuais para ambas: pelo menos no terreno da recepção, a literatura ficou mais popular, e o cinema, mais maduro. Do ponto de vista semiótico, o interessante é observar um ligeiro paradoxo: é que a prática generalizada da adaptação no mundo todo, ao mesmo tempo, aproximou e afastou estas duas modalidades de arte, na medida em que enfatizou o que tinham em comum – a narratividade, por exemplo – e o que tinham de diferente: na literatura, a disposição à análise, e no cinema, a disposição à síntese.

E.O. – Como você avalia as adaptações da obra de Shakespeare para o cinema?

J.B.B. – Considerada diacronicamente, ou seja, enquanto fato histórico, a adaptação de Shakespeare ao cinema passou (como, aliás, a de outros autores) por um processo que vai da fidelidade cega à liberdade transcriadora. Fazendo o retrospecto, é possível notar que as adaptações mais antigas tenderam a ser mais servis ao texto original, ao passo que as mais modernas (dos anos sessenta ao presente) tendem a ser mais ousadas. Exemplos de ousadia transcriadora, lembrados ao acaso, podem ser: o musical de Robert Wise “Amor sublime amor” que muda o cenário, o tempo e os antagonistas da peça “Romeu e Julieta”; o experimento de Peter Greenaway “A última tempestade”, que conta a estória de “The tempest” como se fosse poesia plástica; e o filme de Al Pacino “Ricardo III”, que, ao invés de adaptar a peça original, metalinguisticamente, formula a pergunta sobre a possibilidade de empreender a adaptação, convidando o espectador a contribuir na resposta à pergunta formulada.

E.O. – Em sua opinião, quais os diretores mais bem sucedidos com a adaptação de textos de Shakespeare?

J.B.B. – Não preciso citar nomes, mas, acho que é um consenso que os mais bem sucedidos adaptadores de Shakespeare têm sido os que relegaram a forma (teatro) e se concentraram no espírito da obra. Quem faz o milagre de casar as duas coisas é o Kenneth Brannah de “Hamlet”, ao mesmo tempo teatral e cinematográfico, fiel e ousado, um caso à parte, a ser estudado pelos especialistas. Um detalhe a lembrar, a esse propósito, é que o próprio Shakespeare nunca foi original, no sentido em que todas as suas peças eram recriações de textos ou histórias já existentes, que ele, espertamente, modificava em razão de seus objetivos imediatos. De modo que, os cineastas livre-adaptadores que vão em busca do espírito e agridem a forma estão apenas sendo “shakespearianos”.

E.O. – O livro de contos que você escreveu (“Um beijo é só um beijo”), dirigido especialmente ao público cinéfilo, é uma coletânea de textos baseados em grandes clássicos do cinema. Em sua opinião, quais os três melhores filmes de todos os tempos?

J.B.B. – Não é sensato citar os três melhores filmes de todos os tempos sem um preâmbulo explicativo sobre os critérios da escolha. Estes filmes podem ser escolhidos, impessoalmente, pela relevância histórica, semiótica, estética, etc, ou, pessoalmente, pelo gosto de quem escolhe. No primeiro caso, com certeza, os filmes seriam obras primas consagradas pela crítica internacional, como “Cidadão Kane”, “A regra do jogo” e “O encouraçado Potemkin”. Já no segundo caso, a coisa é toda diferente; se tivesse de escolher a partir de critérios estritamente pessoais, eu teria que mudar a expressão “os três melhores” para “os três que mais amo” e aí, eles seriam “A felicidade não se compra” (“It’s a wonderful life”, Frank Capra, 1946), “Desencanto” (“Brief encounter”, David Lean, 1945) e “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”, John Ford, 1962).

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Edição de 23 de agosto de 2007. Expediente: Angelina Oliveira, Antonio Pralon, Genivalda Oliveira, Luziânia Porto e Vanessa Brás.

quinta-feira, 18 de março de 2010

As idéias são a arma essencial...

...na luta da humanidade




































































































































































Amores contingentes e existencialismo

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir...

...viveram à frente do seu tempo. Tiveram um relacionamento de mais de 50 anos, sem nunca terem se casado ou vivido juntos. Marcaram o pensamento moderno com suas obras e destacaram-se como ativistas políticos na segunda metade do século XX. Ele criou o existencialismo, ela o feminismo.

Adeptos de amores “contingentes”, Sartre e Beauvoir viam a “fidelidade” como sinônimo de compromisso com a verdade – base do amor “absoluto” que tinham um pelo outro. As mentiras, ou “meias-verdades”, como dizia Sartre, só cabiam nos amores contingentes, aqueles não essenciais, apenas circunstanciais. No amor absoluto, não havia lugar para segredo, nem privacidade, que, para o casal, eram atributos de uma “hipocrisia burguesa”.

Muitos foram os amores contingentes vividos por ambos. Sartre teve várias mulheres por longos anos, algumas delas sustentadas por ele até sua morte. Não só financeiramente as ajudava. Algumas eram atendidas regularmente em sessões de psicanálise realizadas por ele mesmo. Wanda, Dolores, Michelle, Lena e Arlette foram seus relacionamentos mais marcantes. Nenhum deles comparável, em intensidade e permanência, ao que teve com Simone, seu verdadeiro amor. Só com ela a cumplicidade era total. Era com Simone que Sartre tinha intermináveis e prazerosos tête-à-tête, em que falavam de literatura, filosofia, política, assuntos domésticos e, claro, de suas intimidades. Partilhavam confidências de suas relações amorosas, das mais consistentes às mais fugazes.

Sartre era um homem altamente racional, mas extremamente chauvinista na arte de seduzir. Esteticamente desfavorecido – era baixinho, vesgo e barrigudo – fazia de seu dom com as palavras arma infalível para arrebatar corações. Também usava e abusava do humor em suas conquistas amorosas. Algumas de suas mulheres enlouqueciam literalmente, ao se sentirem não correspondidas na paixão que Sartre lhes provocava. Uma delas, Cristina, jornalista brasileira de 25 anos, que entrevistara Sartre em Recife em 1960, entregara sua virgindade a ele, então com 55 anos.

Machista por natureza, Sartre era avesso ao homossexualismo. Já Simone, conforme revelaram suas cartas a Sartre – publicadas postumamente – teve várias experiências com mulheres. Mas foi marcada mesmo por seus romances com homens, entre eles, Laurent, Algren e Claude.

A filosofia existencialista, sistematizada por Sartre e difundida por ele mundo afora, marcou a vida do casal. O existencialismo sartreano procura explicar todos os aspectos da experiência humana. Para Sartre a “existência precede e governa a essência”. Uma doutrina que “não tratava de possibilidades ou intenções, mas sim de projetos concretos”, e era aplicável também ao amor. Dizia Sartre, “não existe amor a não ser o que se constrói”.

A idéia de liberdade era parte integrante da vida de Sartre e Beauvoir. Dizia ele, “o homem é condenado a ser livre”. Dizia ela, “toda tentativa de evitar nossa liberdade é má-fé”. Tinham uma preocupação comum que balizava suas vidas: como fazer o melhor uso possível da liberdade? Quando jovens, priorizaram a liberdade individual. Mais tarde, quando se tornaram personalidades públicas, Sartre e Beauvoir produziram uma literatura altamente engajada.

Pacifista e comunista, Sartre foi um apologista do stalinismo. Manteve laços estreitos com a antiga União Soviética, inclusive um longo caso amoroso com uma russa, Lenina Zonina. Esteve com Beauvoir em Cuba, logo após a revolução, em companhia de Fidel Castro e Che Guevara. Já sexagenários, participaram ativamente das manifestações estudantis de 1968 na França.

Marcados profundamente pela guerra e pela ocupação nazista da França, foram acusados de antipatriotas – pelo apoio manifestado à independência da Argélia, então colônia francesa – e submetidos a um exílio em seu próprio país. Desde jovens eram obcecados com a idéia de posteridade – o que Sartre chamava de “ilusão biográfica” –, com o valor que suas obras e relatos de vida teriam para a humanidade.

Visionários da importância do que tinham a dizer para o mundo, Sartre e Beauvoir produziram uma vasta bibliografia, que inclui romances, contos, ensaios filosóficos, dramaturgia, novelas e artigos para revistas e jornais. Trabalharam com obstinação e disciplina. A biógrafa de Sartre conta que ele chegou a passar cinco noites em claro – a base de remédios – para concluir um ensaio. Não gostava de cadeiras confortáveis, que pudessem “corromper” o usuário, tamanha era sua disposição para escrever. Morreu em 1980 aos 75 anos. Beauvoir, seis anos depois, aos 78. Não sem razão, a história reservou a eles um lugar à altura do que foram para sua época e do que representam suas obras para o pensamento moderno.

FONTE: Tête-à-tête, de Hazel Rowley (Rio de Janeiro: Objetiva, 2006).