sábado, 30 de novembro de 2019

‘Monumento ao desperdício e à loucura’, hidrelétrica de Belo Monte é destaque no maior jornal da França

Última turbina a entrar em operação foi inaugurada “a toque de caixa” pelo atual presidente, diz Le Monde

FOTO: Juan Doblas/ISA/Reuters

Trinta anos após o anúncio oficial de sua construção, marcado pela emblemática cena da índia Tuíra, facão em punho, ameaçando o presidente da Eletronorte em sinal de protesto, Belo Monte enfim dispõe de sua capacidade máxima para produzir energia.

Quatro décadas passaram-se desde o primeiro estudo e onze anos de obras para que a “estrutura mastodonte” instalada em um dos afluentes do rio Amazonas começasse a gerar eletricidade, diz o Le Monde.

O destaque da matéria, publicada hoje no portal do jornal francês, são as palavras do Procurador Regional responsável por Belo Monte, Felício Pontes, que classificou a hidrelétrica como um monumental desperdício de dinheiro público, fruto da insanidade humana.

Sim, o gasto total com a obra é estimado em 50 bilhões de reais, 80% de dinheiro público. Projetada para uma capacidade de 11 mil MW (megawatts), Belo Monte é provavelmente a última hidrelétrica de grande porte do planeta.

Durante o governo Lula, em 2010, a construção da usina foi retomada em ritmo acelerado, com promessa de preservação dos territórios indígenas. Mas não sem a oposição de lideranças da etnia Juruna, como Sheila Jakarepi, sublinha o Le Monde.

De fato, nem tudo são flores na seara na megausina de “energia limpa”. Após inúmeros desmentidos oficiais, a concessionária (Norte Energia) à cargo de Belo Monte confirmou que, desde sua entrada em operação em 2016, a produção anual média de energia foi de 40% da sua capacidade máxima de projeto.

Finalmente, os resultados efetivos da operação da usina nos últimos anos dão razão às dezenas de análises técnicas e estudos científicos que advertiam da não viabilidade econômica do projeto, destaca o Le Monde.

Um dos principais estudiosos de Belo Monte e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas sobre a Amazônia (INPA), Philip Fearnside, afirma que “Belo Monte só produzirá a energia prevista [com potência de 11 mil MW] a custa de novas barragens”.

Especialistas já constataram que, no período de seca, quando o volume de águas do rio Xingu é sensivelmente menor, durante pelo menos 4 meses os reservatórios estarão praticamente vazios. “Apenas uma turbina [de um total de 18] poderá operar nesses meses, e a situação deve se agravar com o aquecimento climático”, diz Fearnside, que também é membro do IPCC brasileiro.

Energia limpa? Nem tanto, se considerarmos o gigantesco impacto ambiental produzido pelo empreendimento, que alagou 503 km2 de floresta nativa. E seus efeitos sobre a atmosfera.

A decomposição microbiana da matéria orgânica depositada no solo inundado produz uma quantidade importante de metano (CH4), um gás 20 vezes mais deletério que o CO2 em relação ao efeito estufa atmosférico. Não há dados que permitam avaliar em escala global a influência dessas emissões sobre o clima.

A reportagem do Le Monde aborda, ainda, aspectos judiciais envolvendo corrupção das empreiteiras que construíram Belo Monte. Malfeitos detectados somente em 2017, o que permitiu à Norte Energia lançar mão de dispositivo legal do período da ditadura, pelo qual decisões judiciais em favor do erário público são anuladas, quando “contrárias ao desenvolvimento nacional”.

Outras “batalhas judiciais continuam, para obrigar a concessionária a limitar as consequências socioeconômicas previstas no estudo de impacto”, ressalta o diário francês.

Finalmente, a matéria publicada no portal do jornal francês destaca os nefastos efeitos de Belo Monte sobre as populações locais: 40 mil pessoas deslocadas, desemprego, pobreza, alcoolismo e suicídio.

Indicadores de um verdadeiro “terremoto social”, com epicentro em Altamira, uma das cidades mais violentas do Brasil, onde o avanço das queimadas e do garimpo ilegal é recorde na Amazônia.

O Le Monde fecha sua matéria destacando a proposta do atual governo federal para o desenvolvimento da região: uma mudança constitucional que permita a exploração mineral de territórios indígenas demarcados, à revelia das populações nativas.

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2 comentários:

  1. Brasil precisa urgentemente de ter um planejamento integrado com a demanda. Resolver o suprimento energetico apenas pelo lado da demanda é ato ambientalmente insustentável!

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    1. Belo Monte foi exatamente o oposto do que você recomenda. Expandir a geração hidroelétrica a tamanho custo ambiental e financeiro será que vale a pena?

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