quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Teria havido 130 anos atrás uma pandemia de ‘Covid-18’?

Evidências científicas indicam que ‘gripe russa’ do século XIX teve características semelhantes às da atual epidemia de Covid-19

Em 1890, anúncios promoviam inaladores nasais como “remédio” para o excesso de catarro. GETTY IMAGES  

Menos conhecida que a devastadora gripe espanhola, epidemia que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas, de 1918 a 1920, a chamada gripe russa (1889-1894) não é menos interessante e, talvez, a mais pertinente a ser evocada como referencial no contexto da Covid-19.

Estudos com diferentes enfoques (genéticos, epidemiológicos e clínicos) apontam várias semelhanças entre a histórica pandemia -que eclode com o advento das ferrovias na Europa e na Ásia- e a atual pandemia viral respiratória.

A hipótese comum aventada por estes estudos é a de que o vírus OC43, causador da primeira pandemia de gripe moderna -conhecida como gripe russa, “de São Petersburgo” ou gripe asiática- teria dado origem a um dos quatro coronavírus humanos benignos existentes.

A doença teria surgido em algum lugar do Império Russo em 1889, provavelmente em São Petersburgo, e rapidamente se espalhou pelo planeta em sucessivas ondas. Em apenas seis semanas a pandemia invade a Europa ocidental e atinge seu apogeu nos Estados Unidos em janeiro de 1890, ao mesmo tempo em que chega à Austrália e Nova Zelândia. Nesta primeira onda, pelo menos um milhão de pessoas morreram em todo o mundo, cuja população era de 1,5 bilhão.

A disseminação da doença segue rigorosamente o trajeto dos 200 mil quilômetros de vias férreas recém construídas mundo afora e avança na velocidade dos trens, marcando a epidemia como tipicamente urbana: cidades portuárias e capitais são as primeiras a serem afetadas. Rapidamente, a hipótese de transmissão miasmática (pelo vento e pelos rios) é abandonada pela comunidade científica.

No plano clínico, a gripe russa foi caracterizada inicialmente como uma infecção respiratória clássica, mas logo foram observados sintomas inusitados e alguns similares aos da Covid-19, tais como maior grau de contágio do que a gripe (particularmente entre pessoas da mesma família), inchaço dos dedos (vasculite), maior frequência de distúrbios renais e digestivos, alta mortalidade entre pessoas idosas e casos de reinfecção (15% dos pacientes) por até duas vezes.

Os tratamentos adotados eram feitos à base de remédios fantasiosos e sem nenhuma prova de eficácia, como o óleo de rícino, quinino, ostras, conhaque, corrente elétrica e até estricnina, esta última causando morte súbita em muitos pacientes em 1891.   

Considerada a “primeira pandemia midiática”, a divulgação da gripe russa nos meios impressos da época suscitou sentimentos não muito diferentes do que vimos ao longo de 2020. Expedientes como o sensacionalismo (“pessoas caindo mortas nas ruas”), a tentativa de racionalização (“os mais cultos são mais susceptíveis a se contagiar”) ou acusações contra a alta tecnologia da época (“as cidades são mais afetadas por causa da luz elétrica”) eram comumente usados para noticiar a doença.   

Às vésperas de completar um ano, desde o primeiro caso de infecção por SARS-CoV-2 reportado na China (em 17 de novembro de 2019), diferentes canais de mídia divulgaram resultados de estudos filogenéticos, epidemiológicos e clínicos da gripe russa, que sugerem uma origem viral comum entre ela e a Covid-19. O acrônimo “Covid-18” no título do artigo refere-se ao hipotético nome (sigla para Coronavirus Disease) que teria a gripe russa; 18 significa sua ordem cronológica, embora a sigla correta fosse Covid-89, em razão do ano de aparição da doença (1889).

Os estudos relatam, por exemplo, que em 2005 pesquisadores belgas sequenciaram de forma inédita o genoma completo do OC43, comparando-o ao de um coronavírus do boi (o BCoV), e concluem que a data mais recente de um ancestral comum entre esses vírus remonta a 1890.

O resultado foi confirmado em 2020 por pesquisadores dinamarqueses que, em agosto, dataram o OC43 também por volta de 1890, a partir de uma mutação do BCoV. Trata-se de um estudo mais robusto porque utiliza diferentes versões do genoma do OC43, coletadas durante 15 anos.

Assim, do ponto de vista filogenético -área da biologia que trata das relações evolutivas entre os seres vivos- é razoável supor que o OC43 seja o coronavírus à origem da pandemia de gripe russa. Elementos epidemiológicos e clínicos reforçam esta hipótese.

Entre 1870 e 1890, o rebanho bovino mundial foi dizimado por uma zoonose (uma pleuropneumonia contagiosa), provavelmente relacionada com a expansão vertiginosa do comércio de gado vivo, viabilizado pelas ferrovias. Para controlar a doença, centenas de milhares de cabeças de gado foram abatidas, expondo o pessoal encarregado do abate aos vírus respiratórios dos animais, entre eles o BCoV, por um longo período.

Consequentemente, supõe-se que uma mutação deste vírus tenha dado origem ao OC43 e este tenha sido transmitido àqueles profissionais, ou que o OC43 tenha se desenvolvido no organismo humano após o contágio pelo BCoV. Esta segunda hipótese nos remete à epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) em 2003, associada ao consumo humano de civetas -um felino semelhante à raposa- ou ainda, à epidemia de AIDS surgida nos anos 1950, causada pela ingestão da carne de chipanzés selvagens.

Em termos clínicos, o que se conhece sobre a patogênese de OC43, particularmente os sintomas neurológicos da doença, permite compará-lo ao novo coronavírus. No ano 2000, cientistas canadenses constataram a semelhança desses sintomas com os de um outro coronavírus, o 229E, presente no catarro de um resfriado comum.

Eles analisaram o RNA do OC43 e do 229E de amostras coletadas do cérebro de cadáveres de pacientes com esclerose múltipla (EM) e compararam com as de portadores de “outros distúrbios neurológicos” e “sem sintomas neurológicos”. A frequência de traços de OC43 foi significativamente maior nas amostras de portadores de EM do que nas de outros pacientes (39% contra 14%).

Os autores afirmam, ainda, que os coronavírus humanos podem infectar outras células do tecido nervoso, sugerindo que esses vírus podem ser “neurotróficos, neuroinvasivos e neurovirulentos”, o que coincide com a capacidade de desencadear surtos de esclerose múltipla que as infecções respiratórias virais possuem.

Outros elementos clínicos da gripe russa permitem compará-los aos sintomas de Covid-19 relatados durante o pico pandêmico ocorrido em março, como a vasculite (inflamação das paredes dos vasos sanguíneos) nas pontas dos dedos e outras formas graves em pessoas idosas.

Devido à baixa estabilidade do RNA, mesmo em cadáveres congelados no pergelissolo russo ou da Groelândia há 130 anos, provavelmente seja impossível comprovar por A mais B que o coronavírus OC43 tenha sido o responsável pela pandemia de gripe russa.

No entanto, ainda temos muito que aprender sobre a pandemia de Covid-19 em seus múltiplos aspectos. Do ponto de vista biológico, o SARS-CoV-2 se tornará um vírus respiratório comum e benigno daqui há alguns anos.

Epidemiologicamente, como prever o surgimento de novas doenças de origem zoonótica? Enquanto sociedade, como reagiremos -população e mídia- face a futuras pandemias? Negacionistas e antivacinas continuarão tendo algum protagonismo?

Fonte: https://www.vidal.fr/actualites/26269-pandemie-de-grippe-russe-une-covid-du-xixe-siecle.html?fbclid=IwAR3jTKv5ECYNm0MXW5wmzoXbA-vXdOGkQY7HLG8V2ZW7F7y3TDbpBaRwcY4

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