segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Europa faz a escolha certa? Enquanto financia a guerra, compromete seu futuro climático

Nos últimos quatro anos de guerra na Ucrânia, União Europeia ampliou drasticamente seus gastos militares, mas avançou pouco na transição energética

Protesto "Welfare, not warfare" contra o rearmamento da União Europeia e da OTAN, ocorrido em 14.6.2026, em Roma (IMAGEM: il Fatto Quotidiano) e outras capitais europeias.

Desde o início do conflito militar em solo europeu, há 4 anos e meio, os países do bloco reduziram consideravelmente o consumo de gás e petróleo da Rússia, reorganizaram suas cadeias de abastecimento e passaram a tratar a segurança energética como uma questão de soberania nacional.

A guerra demonstrou que, quando há vontade política, a União Europeia é capaz de mobilizar, em poucos meses, recursos financeiros, capacidade industrial e instrumentos regulatórios de uma magnitude raramente observada. Então, por que essa mesma urgência jamais foi empregada para cumprir as próprias metas climáticas estabelecidas pelo bloco?

Desde a COP21, realizada em Paris em 2015, a Europa se apresenta como protagonista mundial no combate às mudanças climáticas. O Acordo de Paris estabeleceu uma meta inequívoca: limitar o aquecimento global a 2°C e envidar esforços para não superar 1,5°C. Esse objetivo exige uma rápida substituição de energia de origem fóssil por fontes renováveis.

No entanto, passados quase onze anos daquele compromisso histórico, o avanço da transição energética continua aquém da velocidade exigida pela própria ciência climática. A participação de fontes renováveis no consumo final de energia da União Europeia avançou menos de 10%, de 2022 a 2024: passou de 23% para apenas 25,2%. Um progresso bem abaixo da meta de 42,5% prevista para 2030.

É verdade que o setor elétrico apresentou resultados muito mais expressivos. Antes da guerra, em 2021, cerca de 38% da eletricidade europeia era produzida por fontes renováveis; em 2025, essa participação alcançava 47%. Essa evolução, embora relevante, não altera o problema central: transporte, aquecimento de edifícios, indústria pesada e aviação continuam fortemente dependentes de petróleo e gás natural.

Desde a eclosão da guerra, em 2022, a participação da Rússia nas importações europeias de gás caiu vertiginosamente: de 45% para 12% em 2025. Já o fornecimento de petróleo bruto russo no mesmo período despencou de 27% para cerca de 3%, enquanto as compras de carvão foram praticamente eliminadas.

No contexto do atual conflito militar, o bloco europeu tem transferido montantes significativos de recursos financeiros para seu rearmamento, sob a justificativa de que a Rússia representa uma ameaça existencial ao continente, avaliação compartilhada por diversos dirigentes europeus e pela OTAN. Em poucos meses, governos aprovaram sucessivos pacotes de ajuda militar à Ucrânia e assumiram compromissos para elevar os gastos militares a níveis sem precedentes desde o fim da Guerra Fria.

Se a União Europeia demonstrou inegável capacidade de direcionar recursos políticos e financeiros para o esforço de guerra, por que não empregar essa mesma capacidade para acelerar a transição energética e a descarbonização de sua economia?

Uma pergunta que se torna ainda mais pertinente quando se observa quem mais se beneficia economicamente dessa nova corrida armamentista: os Estados Unidos. O país norte-americano continua sendo o principal fornecedor de material bélico aos países europeus e o maior beneficiário industrial da expansão dos gastos da OTAN.

Ao mesmo tempo, os EUA tornaram-se o principal provedor de gás natural liquefeito para a Europa após a interrupção do fornecimento de gás russo por gasodutos, causado pela ação de sabotagem que explodiu as instalações do Nord Stream 1 e 2, em setembro de 2022. As explosões destruíram três das quatro linhas que ligavam diretamente a Rússia à Alemanha pelo Mar Báltico.

A destruição dos gasodutos representou uma espécie de autossabotagem estratégica para a Europa. Uma infraestrutura construída durante anos, com capitais russos e europeus, que permitia transportar grandes volumes de gás diretamente até os principais parques industriais do continente.

Países como França, Espanha e Bélgica continuaram recebendo cargas de gás natural liquefeito (GNL) da Rússia, inclusive em volumes relevantes. No primeiro semestre de 2026, as importações europeias provenientes do projeto russo Yamal LNG atingiram nível recorde, mas até 2027 essa importação deve cessar.

Assim, a Alemanha e outros países com forte atividade industrial perderam, não apenas o acesso ao gás russo, mas também uma rota terrestre e submarina relativamente barata, previsível e já amortizada, sendo obrigados a recorrer com maior intensidade ao mercado internacional de GNL.

E advinhem quem foi o principal beneficiário desse novo mercado? Exatamente os EUA, o principal fiador militar da OTAN. Suas exportações de GNL para a União Europeia triplicaram, entre 2021 e 2025, cuja participação ao final desse período alcançou cerca de 58% de todo o GNL importado pelo bloco.

Uma energia cara e poluente, já que grande parte provém de jazidas de gás de xisto, com alto impacto ambiental associado à extração, feita por fraturamento hidráulico. Além disso, os demais processos ao longo da cadeia, como a liquefação, o transporte transatlântico em navios metaneiros e posterior regaseificação, estão associados ao risco de emissões de metano.

A Europa substituiu, portanto, uma dependência energética da Rússia por uma dependência crescente dos Estados Unidos, a um custo econômico e ambiental mais elevado.

Nos primeiros meses da guerra na Ucrânia, ainda não era possível saber se a crise energética subsequente aceleraria a transição europeia para fontes renováveis ou levaria os governos a abandonar, ainda que temporariamente, seus compromissos climáticos.

Quatro anos depois, a resposta começa a se tornar mais clara. A guerra efetivamente não impediu o avanço da transição energética europeia, já que ampliaram-se os investimentos em energia solar, eólica, eficiência energética e eletrificação.

Ao mesmo tempo, porém, obrigou o continente a importar grandes volumes de gás natural liquefeito, sobretudo de origem norte-americana, manter em operação algumas termelétricas a carvão por mais tempo do que o planejado e prolongar a vida útil de parte de seu parque nuclear.

O resultado líquido foi a continuidade da redução das emissões de gases de efeito estufa, mas em um ritmo ainda insuficiente para colocar a União Europeia na trajetória exigida por suas próprias metas climáticas.

Governos europeus justificam a expansão sem precedentes de gastos militares, afirmando que o continente enfrenta uma "ameaça existencial". A pergunta que deveria ser feita, porém, é outra: qual é, de fato, a maior ameaça existencial para os cidadãos europeus? Uma hipotética expansão militar russa — argumento frequentemente evocado por dirigentes europeus e pela OTAN — ou a sucessão de eventos climáticos extremos que já afetam a vida cotidiana dos pessoas?

Nos últimos anos, a Europa registrou ondas de calor cada vez mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais, perdas agrícolas, retração da disponibilidade hídrica e milhares de mortes associadas às temperaturas extremas. Diferentemente das ameaças militares, essas não pertencem ao terreno das projeções estratégicas. São uma realidade mensurável, vivida há pelo menos uma década, todos os verões por milhões de europeus.

Ao mesmo tempo, a própria guerra agravou outro problema que afeta diretamente a população europeia: o custo de vida. A ruptura do sistema energético construído ao longo de décadas elevou os preços da eletricidade, do gás, dos combustíveis, dos alimentos e de inúmeros bens industriais.

A inflação tem corroído o poder de compra das famílias, aumentado os custos de produção das empresas e reduzido a competitividade de boa parte da indústria europeia. Em outras palavras, os cidadãos passaram a financiar, por meio da perda de renda e do encarecimento da energia, uma reorganização geopolítica cujo principal beneficiário econômico situa-se fora do continente.

Nesse contexto, a escolha orçamentária torna-se inevitavelmente política. Cada euro destinado à aquisição de armamentos deixa de financiar a aceleração da transição energética, a adaptação das cidades às ondas de calor, a modernização das redes elétricas, a expansão das fontes renováveis. Em diversos países europeus, a expansão dos gastos militares também pressiona os orçamentos destinados a áreas sociais como saúde e educação, penalizando ainda mais suas populações.

Diante da maior crise climática da história da civilização, faz sentido tratar como prioridade absoluta uma ameaça de invasão militar, cuja dimensão futura permanece no campo da especulação e do debate político, enquanto os efeitos do aquecimento global já se manifestam, de forma concreta, sobre a saúde, a economia e a qualidade de vida de centenas de milhões de europeus?

A própria justificativa apresentada por Moscou para a anexação de áreas de fronteira ucranianas — impedir uma expansão da OTAN considerada uma ameaça direta ao seu território —, concorde-se ou não com ela, reforça uma conclusão incômoda: se o conflito é geopoliticamente localizado, seus custos econômicos, sociais e ambientais foram distribuídos por todo o continente e recaem sobre populações sem nenhum poder de influência sobre as decisões estratégicas tomadas por seus governos.

A guerra transformou o rearmamento europeu em prioridade absoluta. Ao mesmo tempo, a crise climática continua recebendo uma atenção política muito menor, embora a própria União Europeia a reconheça oficialmente, desde a publicação do Pacto Ecológico Europeu, em 2019, como uma ameaça existencial. Se assim é, por que ela não recebe o mesmo senso de urgência nem uma mobilização equivalente para acelerar a transição energética?

Talvez este seja o maior paradoxo da Europa contemporânea: optar entre financiar uma guerra ou acelerar sua transição energética é uma decisão que vem sendo tomada sem consulta direta às populações que arcarão com seus custos.

Se as consequências dessa escolha podem marcar o destino de várias gerações, ela deveria ser legitimada pela forma mais elevada de democracia: um plebiscito. Em última instância, somente os próprios cidadãos da União Europeia deveriam decidir entre continuar financiando a guerra ou redirecionar esses recursos para melhor enfrentar a crise climática, aumentando o investimento em energias renováveis e ações de adaptação.

Um comentário:

  1. Europa ficou refem da paranoia e demencia do Trump! Poderiam ter evitado a guerra na Ucrania e não permitindo o genocidio que acontece em Gaza (já que não condena o terrosrismo do Estado de Israel). Hipocrisia total !

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