sábado, 15 de agosto de 2026

Aquecimento global: quando as pedras da fome reaparecem

Calor extremo agrava seca e faz antigos Hungersteine emergir de rios europeus, ameaçando colheitas e pressionando preço de alimentos

Hungerstein descoberta em 2014, em Gernrode, na região de Quedlimburgo, Alemanha. FOTO: Olaf Meister

Em alguns rios da Europa Central existem pedras que, durante a maior parte do tempo, permanecem invisíveis sob a água. Elas só aparecem quando o nível dos rios desce excepcionalmente. São chamadas, em alemão, de Hungersteine — literalmente, “pedras da fome”.

Durante séculos, populações que viviam às margens de rios como o Elba gravaram nelas datas correspondentes a períodos de secas severas. Algumas receberam também inscrições destinadas às gerações futuras. A mais célebre delas, encontrada em Děčín, na atual República Tcheca, traz uma frase inquietante: Wenn du mich siehst, dann weine — “Se me vires, chora”.

As pedras não eram profecias. Eram memória. Quando uma delas emergia novamente, significava que o rio havia baixado até um nível que, em outros tempos, estivera associado a colheitas perdidas, dificuldades de navegação, redução da atividade dos moinhos, escassez de alimentos e fome.

Numa sociedade essencialmente agrícola e sem os sistemas modernos de transporte e comércio internacional, uma longa estiagem podia rapidamente transformar um problema climático numa tragédia humana. Séculos depois, os Hungersteine estão ressurgindo.

Neste verão de 2026, o fenômeno deixou de ser apenas uma curiosidade histórica. Recentemente, um desses antigos marcos voltou a emergir no Elba, próximo a Pirna, na região alemã da Saxônia. Ao mesmo tempo, grande parte da Europa enfrenta uma combinação severa de calor e falta de chuvas.

Rios apresentam vazões extremamente baixas, reservatórios perdem volume e a umidade do solo cai justamente durante períodos decisivos para diversas culturas agrícolas. A diferença é que hoje sabemos explicar fisicamente o que os homens que gravaram aquelas pedras apenas podiam observar.

Uma atmosfera mais quente modifica o ciclo hidrológico e aumenta a demanda evaporativa. O solo perde água mais rapidamente, as plantas transpiram mais e reservatórios, lagos e rios sofrem maior evaporação. Quando temperaturas extremas coincidem com períodos prolongados sem chuva, instala-se uma combinação particularmente destrutiva para a agricultura: seca atmosférica e seca do solo ao mesmo tempo.

As plantas também possuem limites térmicos. Temperaturas muito altas podem prejudicar a floração e a fertilização, acelerar a maturação dos grãos e reduzir o período de acúmulo de biomassa. Ao mesmo tempo, a agricultura necessita de mais irrigação justamente quando há menos água disponível para irrigar. A Comissão Europeia observa que as perdas agrícolas causadas por secas e ondas de calor na União Europeia triplicaram nas últimas cinco décadas.

O verão europeu de 2026 oferece uma demonstração concreta desse mecanismo. Na França, o calor persistente juntamente com uma seca excepcional do solo poderá reduzir drasticamente a produção de milho. A colheita francesa poderá atingir seu menor volume desde 1976. Na União Europeia, a produção desse grão poderá cair abaixo de 50 milhões de toneladas; algo inédito desde a década de 1990.

Na Europa Central e nos Bálcãs, milho, pastagens e outras culturas enfrentam calor intenso e escassez de água. Até mesmo o Reino Unido, tradicionalmente associado a um clima úmido, apresenta rendimentos de trigo, cevada de primavera e aveia inferiores à média dos últimos dez anos.

É nesse ponto que a antiga “pedra da fome” encontra sua versão econômica contemporânea. Uma seca extrema na Europa do século XVII podia significar fome porque as comunidades dependiam fortemente da produção agrícola local.

Hoje, supermercados são abastecidos por cadeias logísticas internacionais e uma quebra de safra numa região pode ser compensada, ao menos parcialmente, por importações provenientes de outras partes do continente ou do mundo. Isso torna improvável que o reaparecimento de um Hungerstein signifique para a Europa contemporânea o mesmo que há quatrocentos. Mas não que sua advertência tenha perdido o sentido.

Quando as colheitas diminuem simultaneamente em grandes regiões produtoras, a oferta diminui. A irrigação torna-se mais cara. A alimentação dos animais encarece quando as pastagens secam. A produção de leite pode diminuir devido ao estresse térmico do gado. Importações adicionais passam a ser necessárias. Transporte, seguros e armazenamento também podem se tornar mais caros.

Há inclusive um termo cada vez mais utilizado para esse fenômeno: climateflation, ou inflação climática — o aumento dos preços provocado direta ou indiretamente pelos impactos das mudanças climáticas.

O Banco Central Europeu já começou a tratar o fenômeno como uma questão relevante para a própria política monetária. A instituição estima que a onda de calor extremo do verão europeu de 2025 pode ter acrescentado em um ano entre 0,4 e 0,7 ponto percentual aos preços dos alimentos não processados da zona do euro.

Em cenários climáticos futuros, o efeito tende a aumentar: um verão excepcionalmente quente, nas condições climáticas projetadas para a década de 2060, poderia acrescentar cerca de 1,8 ponto percentual aos preços dos alimentos na Europa,  em comparação com um cenário hipotético sem o aquecimento global. Isso introduz uma dimensão social importante no problema climático.

Para famílias de renda elevada, um aumento de alguns pontos percentuais no preço dos alimentos representa principalmente perda de poder aquisitivo. Para famílias pobres, que destinam uma parcela muito maior da renda à alimentação, o mesmo aumento pode obrigá-las a reduzir a quantidade ou a qualidade dos alimentos consumidos.

A antiga fome provocada pela escassez absoluta pode, assim, assumir no século XXI uma forma diferente: o alimento existe, mas uma parcela crescente da população encontra dificuldade para comprá-lo.

Existe ainda uma fragilidade menos evidente. O comércio internacional funciona como proteção contra quebras regionais de safra, enquanto os eventos extremos permanecem relativamente localizados. Se a França perde parte de sua produção, pode importar. Se a Alemanha tem uma colheita ruim, outros produtores podem compensá-la.

Mas o aquecimento global aumenta o risco de eventos extremos atingirem ao mesmo tempo diferentes regiões agrícolas. Nesse caso, a solução de importar torna-se mais difícil, porque os países que deveriam fornecer os alimentos podem estar enfrentando problemas semelhantes.

A própria Europa já oferece sinais dessa vulnerabilidade. A Agência Europeia do Ambiente estima que as mudanças climáticas poderão reduzir, até 2050, os rendimentos de milho e trigo em determinadas regiões do sul europeu em até 49%. Secas, chuvas extremas, geadas e granizo já respondem pela maior parte das perdas agrícolas associadas a eventos climáticos na União Europeia.

A questão deixa então de ser apenas agrícola. Torna-se econômica, social e política. Uma sucessão de más colheitas pode transformar aquilo que começou como uma anomalia meteorológica numa crise de segurança alimentar.

Seria exagerado afirmar que os Hungersteine que emergem novamente dos rios anunciam uma nova era de fome na Europa. As sociedades atuais dispõem de tecnologia agrícola, irrigação, estoques, comércio internacional, previsão meteorológica e capacidade de intervenção estatal que simplesmente não existiam quando aquelas inscrições foram feitas.

Mas talvez seja imprudente considerá-los apenas curiosidades arqueológicas. Os homens que gravaram aquelas datas não conheciam gases de efeito estufa, modelos climáticos, circulação atmosférica ou balanço radiativo da Terra. Conheciam apenas a relação brutal que sua experiência lhes havia ensinado: quando a água desaparece, a colheita pode desaparecer com ela.

Hoje conhecemos os mecanismos envolvidos e sabemos que o clima planetário está está mudando. Por isso, quando uma pedra da fome reaparece no leito de um rio europeu, sua mensagem adquire um novo significado. Ela não anuncia necessariamente a fome que aterrorizava nossos antepassados, mas algo compatível com o mundo contemporâneo: uma crescente vulnerabilidade dos sistemas agrícolas diante da ocorrência cada vez mais frequente de ondas de calor extremo.

Quatro séculos após os Hungersteine advertirem “Se me vires, chora.”, sua mensagem pode ser atualizada: se continuarmos a vê-las, precisaremos fazer muito mais do que chorar.

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