À medida que o aquecimento global acelera o degelo do permafrost e expõe vírus e bactérias preservados durante milhares de anos, surge uma pergunta inevitável: há algum risco para a saúde humana?
Durante muito tempo, imaginou-se que o gelo permanente das regiões polares fosse um ambiente biologicamente inerte. Hoje sabemos que não é. Sob a vasta camada de solo congelado do Ártico, conhecida como permafrost, encontram-se preservados inúmeros vestígios de ecossistemas antigos: raízes, sementes, restos de animais, tecidos orgânicos e uma imensa diversidade de microrganismos que permaneceram isolados durante milhares — e, em alguns casos, dezenas de milhares — de anos.
O permafrost começou a se formar durante as grandes glaciações dos últimos 2,6 milhões de anos. Nas regiões mais frias do hemisfério norte, o verão nunca chegava a descongelar completamente o solo. Assim, ano após ano, estabeleceu-se uma camada permanentemente congelada que, em alguns pontos da Sibéria, existe há centenas de milhares de anos.
Como um gigantesco congelador natural, ela preservou sucessivas camadas de sedimentos, restos de plantas e animais e incontáveis microrganismos. As baixas temperaturas, a escassez de água líquida e a reduzida atividade biológica retardaram drasticamente a decomposição desse material. Nos últimos anos, uma sucessão de estudos revelou que parte desses organismos continua viável.
Em 2023, pesquisadores liderados pelo microbiologista francês Jean-Michel Claverie conseguiram reativar, em laboratório, vírus encontrados no permafrost da Sibéria. O mais antigo deles havia permanecido congelado por aproximadamente 48.500 anos. Ao ser colocado em contato com amebas — seus hospedeiros naturais — voltou a se multiplicar normalmente.
Nascia, assim, a expressão "vírus zumbi", rapidamente difundida pela imprensa mundial. O nome, embora chamativo, é cientificamente inadequado. Esses vírus nunca estiveram mortos; permaneceram apenas inativos durante dezenas de milênios, preservados pelas baixíssimas temperaturas do solo permanentemente congelado.
A descoberta demonstrou algo extraordinário: certos vírus conseguem conservar sua capacidade de infecção por períodos muito superiores à duração de praticamente toda a história da civilização humana.
Isso significa que estamos diante de uma futura pandemia? A resposta, ao menos por enquanto, é não.
Os vírus reativados nesses experimentos infectam exclusivamente amebas. Eles foram escolhidos justamente por não representarem risco conhecido para seres humanos ou outros animais. Até hoje, não existe qualquer evidência de que vírus antigos recuperados do permafrost tenham provocado doenças humanas. Isso, porém, não elimina completamente a preocupação.
O verdadeiro motivo de atenção não é o vírus específico estudado, mas aquilo que ainda permanece desconhecido. O permafrost cobre milhões de quilômetros quadrados do hemisfério norte e funciona como um gigantesco arquivo biológico. É impossível saber exatamente quais microrganismos permanecem preservados em suas camadas mais profundas.
Entre eles podem existir vírus, bactérias, fungos e parasitas pertencentes a ecossistemas desaparecidos há milhares de anos. A própria história recente mostra que esse risco não pode ser simplesmente descartado.
Em 2016, uma onda excepcional de calor atingiu a Sibéria. O degelo expôs a carcaça de uma rena que havia morrido décadas antes infectada pela bactéria do antraz (Bacillus anthracis). Esporos da bactéria sobreviveram congelados e voltaram à atividade, provocando um surto que atingiu rebanhos e dezenas de pessoas.
O episódio não envolvia um vírus pré-histórico, mas demonstrou que microrganismos podem permanecer viáveis por muito tempo em ambientes permanentemente congelados. Enquanto isso, o próprio permafrost está mudando.
Estudos recentes indicam que sua extensão no Ártico tem diminuído, acompanhando o rápido aquecimento da região, muito acima da média global. Segundo o IPCC, esse processo deverá continuar ao longo de todo o século XXI. Mesmo em cenários de forte redução das emissões de gases de efeito estufa, parte significativa do permafrost continuará degradando-se.
Nos cenários de altas emissões, cerca de metade da área atualmente congelada poderá desaparecer até o final do século. Um estudo publicado na Nature Geoscience estima que, como resultado do degelo no permafrost do Ártico, 40 bilhões de toneladas de CO2 poderão ser liberados na atmosfera até 2100.
Essa transformação preocupa não apenas pela eventual exposição de antigos microrganismos. O permafrost armazena aproximadamente o dobro do carbono atualmente presente na atmosfera. À medida que descongela, bactérias voltam a decompor matéria orgânica acumulada durante dezenas de milhares de anos, liberando dióxido de carbono e metano, o que pode intensificar ainda mais o aquecimento global.
A maioria dos climatologistas atribui essa tendência predominantemente ao aumento da concentração atmosférica de gases de efeito estufa decorrente das atividades humanas. Essa conclusão resulta da combinação de observações de campo, registros por satélite e modelos climáticos capazes de reproduzir o aquecimento observado apenas quando incorporam a influência das emissões antrópicas.
Ainda assim, permanece importante distinguir aquilo que já sabemos daquilo que continua sendo hipótese. Sabemos que microrganismos muito antigos podem permanecer viáveis por dezenas de milhares de anos. Sabemos também que o degelo do permafrost está acelerando em diversas regiões do Ártico.
O que ainda não se sabe é se existem, entre esses organismos preservados, patógenos capazes de infectar seres humanos ou outros animais na atualidade. Essa possibilidade permanece, até o momento, apenas teórica.
Os antigos microrganismos do Ártico talvez nunca provoquem uma epidemia. Mas sua simples existência nos lembra que o aquecimento global não altera apenas temperaturas ou regimes de chuva.
Ele começa a abrir um arquivo biológico que permaneceu fechado durante dezenas ou centenas de milhares de anos. Uma verdadeira Caixa de Pandora, mantida fechada pelo gelo durante dezenas de milhares de anos.
Não sabemos exatamente o que encontraremos nas páginas seguintes. E é justamente por isso que a ciência procura desvendá-la antes que o degelo o faça por conta própria.

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